Carta aberta à Directora do PJ

 

 

Nassalete,

 

Entendo partilhar com os leitores do nosso suplemento algo que me desagradou profundamente na última edição.

E faço-o convicto de que tenho essa legitimidade. Não apenas a de leitor semanal, também a de colaborador irregular, mas sobretudo a de ter – publicamente (até na concorrência) e mais do que uma vez – elogiado a aposta de O Primeiro de Janeiro em Vila do Conde. Uma aposta que me parece continuar a ser merecedora de elogios.

 

Como acho que o nosso suplemento deve ser cada vez melhor, entendo que é preciso encontrar formas de evitar que se repita o que aconteceu faz hoje oito dias: uma entrevista de carácter jornalístico feita pelo sector comercial.

A Nassalete saberá melhor do que eu os limites impostos pelas leis (nomeadamente o Estatuto dos Jornalistas) e que uma situação dessas configura uma adulteração do espírito do legislador – no mínimo...

Por outro lado, sabendo-se das dificuldades que o mercado publicitário apresenta, assiste-se cada vez mais ao aparecimento de fórmulas que misturam marketing com jornalismo. E olhe que não me estou a referir ao nosso jornal; há outros – com muito mais meios e ambições – que confundem tudo, para tentar safar as contas do final do ano.

Portanto, que fique claro que não me manifesto contra as tentativas do sector comercial de valorizar os patrocinadores que pagam as respectivas páginas de texto, fotos e anúncios (embora se pudesse pensar numa designação menos ambígua do que “Especial”).

 

O problema, Nassalete, é outro: a entrevista é anti-jornalística, como se pode constatar pelo tom claramente elogioso que usa (o mesmo aconteceria se fosse depreciativo), pelos adjectivos recorrentes (ou, se fosse o caso, insultos) e pelas perguntas de “treta”.

Para um leitor mais ou menos atento do nosso suplemento, uma entrevista como aquela terá causado alguma estranheza: desde logo o facto de não estar assinada (que é uma forma de desresponsabilização e de menorização) mas, principalmente, pelas perguntas que são feitas!

Como é que se pode admitir que alguém do nosso suplemento – que acompanha como nenhum outro meio a vida local – faça as perguntas que lá aparecem? Dois exemplos: “como têm sido cumpridas as prioridades estabelecidas para este mandato?” ou “que papel tem desempenhado a autarquia no sentido de potenciar o desenvolvimento do concelho?”. São perguntas de quem está a leste da realidade, de quem não sabe nada do que se passa (e, pelos vistos, não tem de saber) e de quem não tem informação para contrapor, para pormenorizar, para destacar este ou aquele pormenor.

É uma invasão intolerável de sectores que devem estar afastados da produção jornalística! É uma forma de baralhar e de, inconscientemente, enganar os leitores. Aliás, até acho que não se insere na linha editorial do nosso suplemento, que fez recentemente uma entrevista ao mesmo protagonista.

 

Mas será esta questão assim tão importante, a ponto de justificar o meu protesto?

Pelo precedente que abre, pela desilusão que constitui, pela importância que o nosso suplemento tem localmente, sim.

Esta é uma questão importante porque o jornalismo é importante para nós. Para nós jornalistas e para nós leitores – felizmente, são cada vez menos os que acham que o jornalismo é coisa de jornalistas...

Admitindo que foi um deslize, continuarei fiel leitor e irregular colaborador do nosso suplemento.

 

PS – obviamente que as minhas preocupações aqui manifestadas seriam as mesmas qualquer que fosse o entrevistado, do poder ou da oposição. Provavelmente, até foi apanhado desprevenido pelos contornos anti-jornalísticos da entrevista…

 

 

Vila do Conde, 17 de Novembro de 2004