
Texto
final (30/6/05):
A
Capital antes e depois de Luís Osório
Luís
Osório escreve, na edição de hoje, o seu último editorial como director (o
mesmo acontece com Rogério Rodrigues). É o fim de um ciclo que começou a 15 de
Setembro, quando foi anunciada a metamorfose que pretendia colocar o diário no
grupo dos jornais “de referência” (a direcção entrou uns meses antes, mas para
preparar esta mudança).
Foi
um processo que acompanhei de perto, como se pode ver por este conjunto de textos*.
Quase
um ano depois, A Capital está melhor?
Globalmente
sim, se o termo de comparação for A Capital antes de Luís Osório.
Em
quê? Luis Osório, na despedida, diz que “Saio com a convicção de que demos o
melhor de nós próprios ao projecto, que estimulámos as pessoas para uma
aventura em que não acreditavam ao princípio, que modernizámos o jornal, que
lhe demos uma outra organização, que aumentámos as vendas, o que não acontecia
há longos anos, e, sobretudo, que contribuímos para um acréscimo de notoriedade
e capacidade de influência.”
A
CAPITAL – Do sensacionalismo
Eu,
até por falta de informação (sobretudo interna) não faço o mesmo balanço. Algumas
notas:
-
A Capital conseguiu uma agenda própria (o que não é fácil com tão poucos
meios), mas muitas vezes demasiado alternativa (oito páginas sobre José
Castelo-Branco!) ou basicamente à custa de ser diferente (contra Bush nas últimas eleições norte-americanas);
-
A Capital conseguiu alguma opinião com mais-valia (Daniel Sampaio, Luis Filipe
Borges, por exemplo), mas banalizou-a, por excesso de textos – muitos dos que
opinavam, sobretudo os mais jovens, do quadro redactorial, (compreensivelmente)
não tinham nada de relevante para nos contar;
-
Conjugando falta de meios com a necessidade de ter uma agenda própria (um
alinhamento noticioso alternativo), o resultado foi – muitas vezes – o sensacionalismo
(títulos inchados quando comparados com os textos e os factos);
-
Muitas vezes as manchetes ou os destaques eram notícias já antigas, recuperadas
pelo próprio jornal sem um critério válido (dois dias depois de ter sido
noticiado que o PS não se fizera representar no congresso da UGT, A Capital noticiava
“PS não marcou presença no congresso da UGT); outras resultaram de pura intriga
política, baseada em fontes anónimas (lembro-me de “Santana Lopes teme ser traído
por Morais Sarmento mas receia retirá-lo do Governo”!)
Tudo
negativo?
Não!
O jornal ganhou notoriedade, conseguiu algumas manchetes de grande impacto (a
saída de Carvalhas, por exemplo), ouviu novos
protagonistas, permitiu a reflexão e, como um dia escreveu Luis Osório,
conseguiu fazer um jornal sem depender da Lusa. E fez edições de extraordinária
qualidade, como a de 24/12.
A
CAPITAL – Osório, o próximo director do…
Insisto: Luis Osório deixou uma herança globalmente
positiva no jornal, mas o mais importante parece-me ser outra coisa: se com 40
jornalistas, muitos deles jovens, conseguiu uma mudança significativa, com
outros meios…
(muitas das ligações a páginas de internet, referenciadas no texto, estão perdidas, porque a página on line de A Capital não permite fazer ligações específicas)
Qual é a
quantidade ideal de textos de opinião num jornal? Ou, dito de outra forma, os
jornais portugueses têm excesso de textos de opinião?
A Capital tem!
Comparando as edições de hoje, e juntando crónicas de televisão ou comentários
de bolsa, vi 9 artigos no DN, 11 no Público e 16 em A Capital.
É manifestamente um exagero.
Como é que A Capital consegue ter 16 cronistas diferentes todos os dias? Pôs os
seus jornalistas a escrever textos de opinião. Hoje são pelo menos oito,
excluindo a Direcção...
Todos eles têm alguma coisa a dizer? É duvidoso... (parece ser um daqueles
casos em que é mais a quantidade do que a qualidade).
E já não falo do velho princípio de reservar a opinião na redacção para os mais
veteranos...
Seja como for, 16 textos de opinião?!
(e assim termina o exercício iniciado
em 16 de setembro do ano passado. 20 textos. Na próxima semana tentarei fazer
um resumo de tudo isto)
"PSD quer demissão de Sampaio se Santana vencer as
eleições"
(título da página de "política" de 16/1/05)
No texto, o jornalista ouve três presidentes de distritais (Setúbal, Coimbra e
Lisboa) e os dois primeiros defendem claramente essa posição; o terceiro é
equívoco.
Mas mesmo que fosse claro, será
razoável dizer que (todo) o PSD quer?
Acho que não.
Isso só seria verdade se houvesse uma posição oficial do Partido, se houvesse
uma forma de ouvir os militantes ou se, por exemplo, mais de metade dos
presidentes das distritais se manifestassem nesse sentido.
Agora três (dois...)?
Isso é - mais uma vez - sensacionalismo (a evidente
desadequação entre o que se enuncia e o que acontece de facto e é retratado no
texto).
Manchete
(15/1/05)
"Em 2005 ainda não haverá portagens nas SCUT"
título da página 15:
"PSD quer portagens nas SCUT até ao fim do ano"
primeiro parágrafo da notícia:
"As auto-estradas que funcionam actualmente em regime de SCUT
poderão ter portagens já no último trimestre deste ano".
Como explicar esta grande barafunda?
É difícil, mas talvez a necessidade de fazer (a todo o custo?) uma manchete com
impacto seja uma razão a ter em conta...
A primeira página
de hoje é elucidativa, por um lado, das dificuldades do jornal em ter histórias
próprias e, por outro, da aposta em ter histórias próprias -
mesmo que elas não tenham a força/impacto que será de exigir a uma manchete.
As duas principais notícias de hoje são:
- "Bloco de Esquerda: A história
da criação de um partido";
- "Vitória sólida dá força a Abbas para negociar com Israel";
No primeiro caso admirou-me o jornal não ter tentado valorizar um ângulo menos
conhecido, um pormenor que ficou esquecido, um "segredo" que ninguém
contou; quantos comprarão o jornal por causa desta manchete?
A propósito, o director do jornal, Luis Osório, anuncia algumas afinações, a
partir de hoje, aqui.
Um excerto: "ACapital, nos últimos seis meses, alterou as suas
prioridades editoriais, mudou o grafismo, investiu no acompanhamento da política
partidária e deu uma nova roupagem à cultura. Numa frase, reposicionou-se num
mercado todos os dias mais agressivamente competitivo.
Conseguimos atingir alguns objectivos
fundamentais: o nosso jornal passou a ser tema de discussão e a existir nas
análises diárias da imprensa, estancámos a queda de vendas que parecia
imparável, marcámos muitas vezes a actualidade com as nossas notícias, e
provámos aos nossos leitores que somos dignos da sua confiança e, também, que
fomos capazes de criar um projecto não totalmente dependente das agências".
(hoje não é sobre
primeiras páginas, embora a da edição de hoje - Ajuda humanitária: Anjos da guarda em tempos de
cólera. Na pior das tragédias, na mais horrível das guerras, ainda existem,
felizmente, muitos anjos da guarda. Numa altura em que o mundo se depara com
uma das suas maiores catástrofes da história recente, o maremoto do Sudeste
Asiático, A Capital mostra dez retratos de homens e mulheres que fazem da Humanidade
o seu ramo de trabalho. São estes os verdadeiros super-heróis
de um mundo que, enquanto outros insistem em destruir, eles fazem questão de
salvar - seja mais um exemplo de jornalismo verdadeiramente
alternativo; de mais?)
Dados revelados ontem pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens e
Circulação mostram que A Capital caiu 36,3 nas vendas entre Janeiro e Setembro
deste ano, por oposição aos primeiros nove meses de 2003 (a perda mais
acentuada entre todos os jornais!).
Sabendo-se que a metamorfose liderada por Luís Osório começou precisamente a
meio de Setembro, é muita a curiosidade para saber o que vão dizer os próximos
números de vendas, relativos ao último trimestre de 2004.
PS - A generalidade dos jornais notícia os valores da
APCT; A Capital não...
(várias manchetes,
da última semana)
Noticiar o que toda a gente já
sabe:
"Sócrates quer retirar do Iraque
as tropas da GNR" (22/12)
ou
"PS avisa que haverá instabilidade
se a sua maioria não for absoluta" (20/12)
ou
"Jardim discrimina imigrantes"
(18/12) (a mesma notícia no dia anterior
no DN)
Noticiar o que, provavelmente, não
se sabia e é portanto novo:
"Sócrates não vai recuperar Rendimento Mínimo Garantido" (24/12)
E agora uma manchete completamente
alternativa:
"Oito euros mensais para um gato com sida" (19/12)
(ou seja, em cinco manchetes dos cinco jornais que me chegaram, de 18 a 24 de
Dezembro, temos três sem valor noticioso, uma com notícia e outra altamente
duvidosa... por ser nem mais nem menos do que a manchete; outra coisa, em
cinco, três são sobre Sócrates - um bocado exagerado, não?)
PS - Excelente o destaque do dia 24 "Na véspera de Natal, prendas para os nossos
leitores", um trabalho que qualquer jornal português gostaria
de publicar!
As restantes fases da metamorfose aqui.
6/12/04
A metamorfose de A Capital (14)
A manchete de
hoje:
"Pinto da Costa indiciado por
corrupção em jogo do Benfica"
Em antetítulo uma formulação no mínimo caricata:
"Segundo vários testemunhos, a
revelação foi feita ontem por Pôncio Monteiro"
Em pós-título:
"O árbitro foi Augusto Duarte, e o
Benfica perdeu com o Nacional da Madeira por 3-2. Na inauguração da casa do FC
Porto de Alfândega da Fé, Pôncio Monteiro terá
comentado com alguns sócios e simpatizantes a situação de Pinto da Costa. Entre
todas as confissões, destaque para a suposta interferência no resultado de um
jogo com o Benfica"
No lead da pág. 27:
"Segundo vários testemunhos, a
revelação foi alegadamente feita ontem por Pôncio
Monteiro, após a inauguração da casa do FC Porto de Alfândega da Fé. O antigo dirigente do FCP, em declarações a A Capital, desmente ter dito algo do género porque não é «conhecedor
de nada do que se passou no tribunal»".
(Não pode valer tudo para conseguir uma manchete diferente da concorrência; em
toda a notícia o único testemunho directo é do próprio Pôncio
Monteiro, a desmentir - facto, já agora, não referenciado na primeira página.
Porque não dava jeito? Chama-se a
isso sensacionalismo...; e o alegadamente da pág. 27 que não aparece na primeira
página... também não dava jeito?)
quarta-feira, 24 de novembro de
2004
A
metamorfose de A Capital
(13)
Da primeira página de hoje, três destaques:
- o relatório da SIDA, bem trabalhado;
- uma entrevista "a uns dos mais talentosos escritores da actualidade",
Amin Maalouf, com destaque
para o facto de a entrevista ter sido feita por Carlos Pinto Coelho;
- uma notícia sobre as declarações de Manuel Alegre, lançando Manuel Maria
Carrilho à Câmara de Lisboa;
Duas notas:
1) É corajosa a opção de puxar pela entrevista a Amin
Maalouf para a primeira página (com a foto, acaba por
ser o principal destaque). Faz claramente a diferença. E a referência a Carlos
Pinto Coelho é uma forma de valorizar a aposta feita pelo jornal (bom
marketing, portanto). Só é duvidoso se "Carlos Pinto Coelho entrevista Amin..." não é uma forma de valorizar mais o
entrevistador do que o entrevistado - ou foi mesmo
assim?
2) "Para Manuel Alegre, Ferro Rodrigues não é um bom
nome para a Câmara de Lisboa" é uma maneira no mínimo curiosa
de dizer a coisa. Pela negativa. No interior aparece "Alegre relança
Carrilho em Lisboa". Pela positiva.
sexta-feira, 12 de novembro de
2004
A metamorfose de A Capital (12)
"Santana Lopes teme ser traído por Morais Sarmento mas receia retirá-lo
do Governo" (da primeira página de hoje)
(Farei uma análise mais desenvolvida sobre este metamorfose quando atingir os
20 textos, mas este em concreto merece uma nota em particular: A Capital está a
conseguir afirmar-se como sendo um jornal com coisas diferentes. Mas não
necessariamente melhores. Nem positivas. Esta manchete é - como se pode ler -
pura intriga, sem uma fonte e sem um facto. Não é a primeira vez que são
publicados em Portugal textos destes, sobretudo na política, mas primeira
página? O pior que pode acontecer a A Capital é
não ser levado a sério...)
28/10/04
A
metamorfose de A Capital (11)
Esta merece uma análise mais detalhada.
Na semana passada assinalaram-se dez anos da criação de um registo nacional de
não dadores de órgãos (quem não quer que lhe mexam nas partes, depois de morto,
tem de o declarar).
Com alguma antecedência pedi ao responsável por esse registo dados e uma
pequena entrevista. Uma semana depois (e já com os assessores do ministro das
Finanças ao barulho, vieram os números mas não a entrevista).
Com isso fiz uma notícia (que é mais ou
menos esta que está on line)
que, basicamente, dava conta de quantos são os portugueses que se declararam
não dadores e relatava o funcionamento do processo.
Hoje A Capital declara "99% dos portugueses são dadores e não sabem",
em que recupera as informações de ontem (já agora sem qualquer crédito à
primeira notícia).
É uma abordagem na base do chico-espertismo:
há 10 anos que é assim e A Capital não sabia? Depois, o único depoimento da
peça principal é de alguém que justifica, precisamente, a opção pelo
consentimento presumido.
Fazer um título e construir o texto com esse prisma é sensacionalismo (puxa por
algo que verdadeiramente não tem esse valor jornalístico).
27/10/04
A
metamorfose de A Capital (10)
Na primeira página de hoje (não é manchete, mas está lá):
"PS não marcou presença
no congresso da UGT" ("O Partido Socialista não enviou
uma delegação oficial ao congresso da UGT, o que, de acordo com fontes
sindicais, gerou a maior confusão. João Proença, secretário-geral da central
sindical e conhecido dirigente do PS, desvalorizou a A
Capital a ausência...")
Mas no Correio da Manhã de há dois dias:
"Encerramento
do IX Congresso - PS ESQUECE A UGT".
É preciso estar mais atento...
20/10/04
A
metamorfose de A Capital
(9)
"Vale e Azevedo, António Sala e José Capristano
podem ser expulsos do Benfica"
Podem.
A manchete está bem defendida no interior, com declarações de várias partes
(menos dos proponentes da ideia), e, depois de lido o texto, percebe-se que, se
se conjugarem diversos factores*,
podem.
Mas fazer disso a manchete é muito arriscado.
A notícia está na fronteira do sensacionalismo.
* "... podem ser alvo de um processo
disciplinar cuja sanção mais grave passa pela expulsão de sócio".
19 de outubro de 2004
A
metamorfose de A Capital
(8)
Na capa da edição desta terça-feira:"A
Capital assume, para com os seus leitores, uma linha editorial que defende a
derrota de George W. Bush
nas próximas eleições americanas"
Mas Luís Osório - que diz que os meios de comunicação
social têm que defender causas
justas - já deixou claro que esta situação não se repetirá em eleições
portugueses.
Não será apenas uma aposta de marketing (aparentemente bem conseguida)?
PS - Não é, penso, uma situação original; lembro-me de
ver num comício de Mário Soares em 1985: "O Diário Popular apoia Mário
Soares".
13/10/04
A metaformose de A Capital 7
"Santana não interferiu na
saída de Dias Ferreira"
Como é que se pode afirmar uma coisa destas, com tanta certeza, citando apenas
"uma fonte fidedigna e ligada ao processo" (anónima, ainda por
cima)?
Não faria mais sentido dizer que uma fonte da RTP garante que "Santana
não interferiu na saída de Dias Ferreira"?
É que temos, de um lado, alguém que dá a cara e assume a acusação; e do outro
um anónimo que garante o contrário! Acho que parece desequilibrado, jornalisticamente. Não?
A metaformose de A Capital 6
Muito interessante (no mínimo...) a primeira página de ontem.
Todos os jornais (a começar por aqueles que se classificam como sendo "de
referência") puxam pela intervenção de Santana Lopes.
A Capital não.
"O Super-Homem nunca morre" é a grande manchete, que ocupa
quatro quintos da página. E, dentro, a morte de Christopher
Reeve ocupa a 2, 3 e 4.
E o tempo de antena de Santana?
Tem um minúsculo destaque na primeira ("Santana Lopes promete
estabilidade e orçamento"), remetendo para a 9 e 10. E há também a
crónica de LFB ("sitdowncomedy").
Ou seja, se a ideia é A Capital afirmar-se como alternativa então está a
consegui-lo. Falta saber se pelos melhores motivos.
quarta-feira, 6 de outubro de
2004
A metaformose de A Capital 5
Muito curiosa a forma como a generalidade da comunicação social matutina de
ontem (rádios e televisões) desconfiou da manchete de A Capital - que anunciava a saída de Carlos Carvalhas.
Nas redacções terão pensado: "se isso fosse verdade não saía
O caminho de credibilização de A Capital faz-se mais
lentamente do que os seus responsáveis desejariam (quem é que disse que cair é
fácil, levantar-se é que custa?).
PS - Obviamente, hoje quase todos os jornais referem a "cacha" de A Capital.
quinta-feira, 30 de setembro de
2004
A metaformose de A Capital 4
Parece-me um trabalho bem feito: "Metade dos deputados não cumpre
mandato na íntegra". Não é totaalmente
novo, mas nem sempre se conseguem primeiras-mãos ou
exclusivos. O importante é contar bem os factos.
quarta-feira, 22 de setembro de
2004
A metaformose
de A Capital 3
Dizer isto (na primeira
página) é uma irresponsabilidade muito grande!
"O ex-ministro da Educação, David Justino,
abriu um concurso público para empresas informáticas com o objectivo de
modernizar as tabelas de colocação de professores. Surpreendentemente, esse
concurso foi ganho pela Compta, organização que tem
como presidente da assembleia geral o ex-militante do
PSD Rui Machete e como ex-administrador executivo
Couto dos Santos, antigo ministro da Educação de Cavaco Silva. Um e o outro
não estiveram entre os que apoiaram Santana Lopes. Talvez por isso, a ministra
exige que a empresa seja responsabilizada. Esta aparente promiscuidade é
mais um episódio negro na política feita em Portugal."
(sublinhado meu)
segunda-feira, 20 de setembro de
2004
A metaformose
de A Capital 2
Por várias razões (algumas delas resultantes das suas próprias limitações) A
Capital quer ser diferente. E isso parece interessante.
Mas dedicar oito páginas, da
edição de sábado, à "verdadeira história de José Castelo Branco",
mesmo que com o pretexto que é "o homem de quem todos falam, mas poucos
conhecem", parece um grande exagero.
Não tanto pelo facto do jornal abordar o tema, mas pelo destaque que lhe dá
(toda a primeira página e as tais oito no interior).
Assim à primeira vista parece uma coisa tabloidista
(ainda por cima porque, com mais ou menos detalhe, já várias vezes se contou
esta história!).
16 de setembro
de 2004
A metaformose de A Capital 1
A tentação do sensacionalismo
Resistir ao sensacionalismo significa manter uma coerência (absoluta?) entre
aquilo que é enunciado (em títulos, super-leads ou
legendas) e o texto propriamente dito.
Na edição de hoje há uma página que tem este título: "Medo de
distúrbios leva farmácias a largar programa [de troca de seringas]" (a
página on
line não permite fazer ligações específicas).
Mas no interior há apenas um caso de desistência, contra dois de ligação ao
projecto. E o tom geral da reportagem é de "sucesso" (1200
aderentes). Uma ou outra farmácia desiste? Mas isso não é normal?
Parece-me claramente um caso de desequilíbrio entre o enunciado e o tom geral.
Porque o "negativo" vende mais? Ora aí está algo que um jornal de
referência não deve fazer/pensar.
A
metamorfose de A Capital
Não é todos os dias que se assiste a uma mudança de perfil editorial de um
órgão de comunicação social.
A Capital iniciou ontem um novo período, pretendendo passar de um "jornal
regional com preocupação de temas locais" para um "jornal de
referência" (citações de Luís Osório).
Não é um trabalho nada fácil, até pela evidente falta de meios (humanos,
principalmente).
Aproveitando essa mudança, irei tentar acompanhar a metamorfose. Com um olhar
crítico, como é evidente.