Ler para Ouvir Melhor
Público, domingo, 18 de Julho de 2004

Já houve tempo em que a Rádio merecia a atenção regular dos jornais. Nos anos 30, período em que emergiram e se afirmaram as três grandes emissoras da paisagem radiofónica portuguesa* (RCP, EN e RR, por esta ordem), os jornais dedicavam suplementos especiais ao novo meio. Se consultarmos as colecções dos grandes diários e magazines de Lisboa e Porto das três décadas que se seguiram, encontramos, em muitos deles, colunas cativas de mexericos, mas também de notícias e de crítica. Esta última, nalguns casos, de excelente nível.

A Rádio empalideceu, depois. Dito de forma talvez mais certeira: a Televisão triunfou, depois. Naturalmente.

Interessante é agora, quando iniciamos um outro ciclo (o do triunfo do multimédia) que ouvidos críticos se voltem uma vez mais para a Rádio. Oferecendo-nos a mais valia de quem sabe iluminar-nos, a nós destinatários, uma frase, um som, uma história, e verberar-lhes, a eles destinadores, um lapso, um erro, uma infâmia.

Vem isto a propósito de Blogouve-se, de João Paulo Meneses. O blogue funciona como uma espécie de caderno diário crítico de quem é autor de " Tudo o que passa na TSF", um dos poucos livros editados em Portugal sobre jornalismo radiofónico. Dois exemplos actuais: uma polémica com o presidente do Conselho Deontológico dos Jornalistas, Óscar Mascarenhas, a propósito dos aplausos e dos cachecóis nacionalistas dos repórteres no Euro 2004; e a recente confissão em directo do correspondente da SIC nos EUA, de que vai votar John Kerry. Ler o blogue de JPM (ouve-se.weblogger.terra.com.br) é como ouvir duas vezes. Com a vantagem (algo impensável nos jornais, nas televisões, nas rádios concorrenciais) de sermos conduzidos para outros destinos desse mundo fascinante que é a blogosfera.

*A continental. Porque a ultramarina, aliás nalguns aspectos mais avançada, precisa de tratamento separado.

Adelino Gomes