“Doutores e engenheiros”
Identificação:
É uma unanimidade nacional reconhecer que Portugal é um país afectado pelo complexo dos doutores...
Trata-se de uma tradição tão enraizada na sociedade portuguesa que ninguém escapa – e os jornalistas não estão imunes. É por isso que, apesar de alguns cuidados, acontecem periodicamente situações injustificadas no tratamento académico, mas passando também pelos títulos honoríficos, nobiliárquicos ou eclesiásticos.
Para que fique claro, no texto de rádio (entendendo texto como conceito alargado, que vai do noticiário aos lançamentos que um animador possa fazer) não há tratamentos que demonstrem deferência. Palavras ou expressões como senhor, doutor, professor, professor doutor, engenheiro, arquitecto, sua excelência, monsenhor, sua eminência, sua santidade, sua majestade, sua alteza são recusados.
Admitem-se duas excepções, que não têm outra explicação que não seja um hábito institucionalizado no nosso país (tentar mudar criaria “ruído” no ouvinte): no nome dos bispos é posto previamente um “D.”, letra que também acompanha o nome do pretendente à coroa portuguesa e os reis de Portugal.
Mas tudo isto é para o texto, para aquilo que é escrito; quando interpelamos determinado interlocutor, em directo, algumas condições alteram-se.
Nestas circunstâncias é normal que haja alguma deferência. Tratar Mário Soares pelo nome parece agressivo (e esta agressividade é... “ruído”), justificando um “dr. Mário Soares”.
Contudo, é preferível recorrer aos cargos e às funções que as pessoas desempenham do que aos seus títulos académicos: “sr. Ministro” ou “sr. ministro Morais Sarmento” são opções mais correctas do que “dr. Morais Sarmento.” No caso de Mário Soares, no entanto, “sr. eurodeputado Mário Soares” também seria “ruído”.
Em figuras/funções muito conhecidas, “Senhor Presidente” é tão válido como “dr. Jorge Sampaio.”
Estilo TSF:
A deferência ou reverência no jornalismo são opções erradas – na rádio, as pessoas são tratadas pelo nome ou pela função que desempenham (ainda que, depois, no dia a dia, haja uma deferência excessiva).
Na interpelação em directo existe uma cedência da nossa parte, justificada em nome do respeito pela abordagem ao protagonista e, principalmente, pelos hábitos dos ouvintes.
Finalmente, como vamos desenvolver mais à frente, intimidade entre jornalistas e protagonistas causa estranheza no ouvinte e pode ter uma leitura de demasiada proximidade...
Nota suplementar:
E o tratamento entre camaradas de trabalho?
Ainda que por alguma razão suficientemente válida um jornalista não tenha por hábito tratar por tu um colega de redacção (abrangendo jornalistas, animadores ou colaboradores regulares), na antena deve fazê-lo.
Tutear é algo que introduz proximidade e que humaniza a linguagem (porque é assim que se tratam aqueles que são próximos e que falam de igual para igual), enquanto o tratamento na terceira pessoa é distanciador e deve ficar reservado para aqueles que são nossos convidados na antena (repete-se: um colaborador regular, como um especialista com ligação à TSF, não é um convidado).
Da mesma forma, os que trabalham na rádio devem tratar-se sempre que possível pelo primeiro nome, depois da apresentação inicial, porque isso introduz proximidade e naturalidade no diálogo:
(Editor): “Até esta altura já foram cancelados
50 voos que deveriam partir dos aeroportos portugueses. A greve dos
controladores aéreos em toda a Europa está a alterar significativamente a vida
de quem hoje pretendia viajar de avião e até ao fim da greve, daqui a três
horas, mais voos devem ser anulados.
No aeroporto da Portela está a repórter
Sandra Campos, a quem pergunto se já há uma estimativa final de ligações
canceladas?
(Repórter): Só da TAP são....
(Editor): Sandra,
existem muitos passageiros à espera?”
Ou:
(Editor): “Até esta altura já foram
cancelados 50 voos que deveriam partir dos aeroportos portugueses. A greve dos
controladores aéreos em toda a Europa está a alterar significativamente a vida
de quem hoje pretendia viajar de avião e até ao fim da greve, daqui a três
horas, mais voos devem ser anulados.
Grandes dificuldades, portanto, para a
generalidade das companhias aéreas europeias, isto numa altura, Carlos Santos
Fonseca (o nosso especialista em economia), em que se fala de recuperação:
(Comentador): Se for apenas um dia...
(Editor): Achas, Carlos, que a TAP pode ser
das mais prejudicadas?
(A primeira chamada é uma apresentação, a segunda é diálogo).
Tutear entre camaradas de trabalho é uma obrigação de antena. Mesmo que, a seguir ao directo, as pessoas em causa voltem ao seu registo de (hipotética) distância.
Outras perguntas?
O Papa é “sua santidade”?
Chamar “sua santidade” ao Papa não é propriamente um sinal de comprometimento (ou seja, não chocará os ouvintes), mas não deixa de ser uma deferência. Mais uma vez o que se recomenda, como substitutos, são as palavras que classificam a função: Papa, chefe espiritual da Igreja Católica, líder dos católicos.
Além disso, da mesma forma, o Dalai Lama também é tratado pelos seus seguidores como “sua santidade”. Todos acham que ele é uma “santidade”?
Para acabar com qualquer dúvida,
o Papa não é “sua santidade!”
“O sr. ”?
Uma coisa é interpelar em directo as pessoas tratando-as por “sr... fulano de tal”, outra coisa – muito diferente – é, num texto, num comentário, colocar a palavra “senhor” antes do nome. Além de manifestar uma opinião, tem sempre um sentido depreciativo. E isso é intolerável numa rádio como a TSF.
“Professor Marcelo”?
Existem fenómenos (mediáticos?) de alguma forma inexplicáveis. Mas é verdade que algumas pessoas conseguem alcançar um estatuto que lhes permite ser conhecidos por um epíteto, sem que isso (como acontece a maior parte das vezes) tenha um valor depreciativo.
Marcelo Rebelo de Sousa é “o professor” e numa peça, depois de o nome ter aparecido na abertura, o título académico é um substituto válido.
Nos seus tempos de primeiro-ministro, Cavaco Silva também era “o professor”; e Fernando Santos, quando deixou o FCPorto, já começava a ser conhecido como “o engenheiro.”
Se há uma descodificação imediata e não há um sentido depreciativo nessa classificação aceita-se. Mas estas duas condições têm de se cumprir...
João Pinto é o “menino de ouro”?
Principalmente no futebol é frequente ouvir epítetos ou diminutivos que tendem a substituir o nome do protagonista em causa.
São designações muitas vezes inventadas pelos próprios jornalistas (ainda que também possam ser importadas), e com algum tipo de aderência/justificação à realidade. Mas que se desaconselham vivamente porque demonstram algum tipo de parcialidade e porque levam o jornalista para caminhos perigosos...
Epítetos, só aqueles que forem absolutamente consensuais, sejam facilmente descodificáveis e demonstrem bom gosto: um avançado que marca golos e simula uma pistola com a mão, no festejo, não pode ser tratado na antena da TSF como “o pistoleiro.”
E João Pinto não é, na TSF, o “menino de ouro.” Era desta forma que os sócios do Benfica o tratavam, mas ser jornalista é muito diferente de ser sócio de um clube...
“Menino de ouro” de quem?
Este é apenas um exemplo que demonstra como são perigosos os epítetos...
E quando há convidados com quem temos proximidade, podemos tratar por tu?
Mesmo que nos soe a falso, é conveniente não criar estranheza no ouvinte com essa intimidade; uma combinação prévia é sempre desejável.
Tratar um protagonista na antena por tu indicia cumplicidade e retira margem para que a conversa possa ter a agressividade (no bom sentido) muitas vezes necessária.
Há excepções para o tratamento por tu entre jornalistas e convidados?
Algumas – poucas - circunstâncias justificam as excepções. Isso depende dos temas, dos convidados e das funções institucionais que desempenham.
Dos temas: uma entrevista sobre um novo disco de um grupo/cantor não é a mesma coisa do que esclarecer uma polémica com um sindicalista ou entrevistar um ministro. Mas não é nada que diga que todos os cantores têm de ser tratados por tu... Ainda assim, se o tema exigir/permitir alguma descontracção, alguma liberdade, esse tutear pode ser enquadrável.
Dos convidados: existe alguma ligação entre o convidado e a rádio (um antigo director ou um antigo colaborador da TSF)? É normal e compreende-se (a distância é que seria estranha). O entrevistado é uma criança ou um jovem? É normal que seja tratado informalmente...
Das funções: ninguém aceitará que um ministro seja tratado por tu, mesmo que o jornalista seja irmão dele...
As excepções devem ser calculadas com exactidão, porque o ouvinte não tem culpa/percebe que haja uma ligação preferencial entre um jornalista e um determinado protagonista.
O que fazer quando há protagonistas que nos tratam por tu (seja para nos amaciar seja genuinamente)?
Se for antecipável, deve ser pedido para que tal não aconteça (parece promíscuo...); se o jornalista for apanhado de surpresa não deve referir-se ao assunto durante o directo, mas se for uma gravação pode, a qualquer altura, alterar o rumo dos acontecimentos.
No caso de acontecer em directo, é de manter rigorosamente a mesma atitude e reforçar a atenção para combater outros sinais de excessiva proximidade/confiança.