(publicado no nº 13 do «Superior», pág. 11)
P & R
Uma campanha… triste
João Paulo Meneses
Tão cedo não vamos esquecer a última campanha para as eleições legislativas. E os estudos que quer a sociologia política quer os politólogos vierem a fazer não deixarão de se referir à «estreia» em Portugal daquilo que os norte-americanos, por exemplo, já conhecem há muito: as campanhas negativas.
Numa definição simples, a campanha negativa é aquela que visa o ataque pessoal do(s) adversário(s), sem se preocupar com as suas próprias propostas.
Dir-se-á: numa campanha eleitoral não é raro haver ataques aos adversários. Mas, por cá, têm sido casos isolados. Pela primeira vez pudemos observar:
- cartazes que denegriam os adversários (lembram-se do “Eles mentem, eles perdem”, do Bloco de Esquerda? É exactamente a mesma coisa);
- insinuações de carácter privado, visando um dos candidatos (aquilo que os especialistas do marketing político chamam de “acusações implícitas”);
- aproveitamento de um boato (que o PS atribuiu ao PSD);
É a conjugação destes três factores, e não apenas um deles, por si só, que permite falar-se numa campanha negativa por cá.
O facto de ter falhado em Portugal significa que é uma má estratégia? É impossível dar uma resposta definitiva, se o critério for o da eficácia e o dos resultados – há candidatos que ganharam suportados em campanhas negativas e há outros que perderam (Thomas Jefferson, em 1800, foi – diz a história - o primeiro alvo de ataques pessoais, mas chegou a presidente dos Estados Unidos).
Apesar de haver uma ciência política, pesam – por exemplo nas campanhas – factores de muita subjectividade (que a tornam estimulante e pouco… científica). Exemplo disso, é impossível dizer quanto é que a campanha negativa pesou na derrota ou, até, se ela agradou a muitos eleitores, cujos votos ajudaram a evitar uma derrota maior.
Do meu ponto de vista, o eleitorado português não está (não estava?) preparado para uma campanha negativa. Ainda por cima tão sistemática. E terá reprovado/censurado a sua origem. Vejamos caso a caso:
- os cartazes, quer do PSD (“Quer mesmo que eles voltem?”) quer da JSD (“Sabe mesmo quem é?”), visando o candidato a primeiro-ministro do PS ou outros dirigentes, conotados com o último governo socialista, remetiam para questões mais pessoais do que “profissionais” ou para a sua competência como políticos. Eram mensagens que agradariam ao eleitor fiel do PSD, mas não conquistariam indecisos – esses gostariam que os sociais-democratas lhe dissessem as soluções para Portugal. Dos oito cartazes lançados durante a pré-campanha, metade visavam directamente o adversário;
- as insinuações não podem ser analisadas sem uma referência ao boato que circulou durante vários meses na opinião pública e que terá terminado na véspera da campanha começar, no debate a dois entre Sócrates e Santana. Por muito que o então primeiro-ministro dissesse que o candidato socialista não era o alvo, uma parte significativa da opinião pública (e sobretudo publicada) entendeu as referências ao “colo” ou o desafio sobre os casamentos homossexuais como uma espécie de prolongamento do tal boato;
- como jornalista, ouvi o rumor da alegada homossexualidade de José Sócrates poucas semanas deste ter ganho as eleições no PS, ou seja, vários meses antes da convocação antecipada das legislativas. Circulando de boca em boca, teve uma explosão quando um sítio na Internet, do Brasil, o reproduziu. E a partir daí como que se multiplicou na blogosfera nacional. Entre choque, a reprovação e o argumento de que as opções pessoais não interferem com as funções governativas, a opinião pública portuguesa confrontou-se como nunca antes tinha acontecido. Mas o boato foi perdendo força, com a censura pública e o desmentido formal do visado, no debate com Santana Lopes. Um boato, como é óbvio, nunca tem um autor claro, mas o facto de ter uma origem brasileira e dos responsáveis pela campanha do candidato do PSD terem essa nacionalidade, ajudou a mais especulações, desfavoráveis (ainda que injustas) a Santana Lopes.
Uma campanha negativa é, quase sempre, uma campanha sem ética. Não é por acaso que a Associação (norte-)Americana de Consultores Políticos (http://www.theaapc.org/content/aboutus/codeofethics.asp) estabelece que os seus membros devem abster-se de lançar ataques falsos e enganosos contra os adversários políticos e que devem documentar com rigor qualquer crítica contra os seus adversários políticos. Mas, como reconhece a especialista espanhola Loureds Martin Salgado, “a realidade tem demonstrado que o Código não tem tido um grande impacto na prática” (“Marketing Político”, Paidós, 2002, pág. 41).
Provavelmente, virá o dia em que teremos de reconhecer que uma campanha negativa resultou. Mas, até lá, saudemos a vitória da ética.
Jornalista e docente no ISLA-Gaia