Lições da Central
(2004-2005)
(1)
"O que conta é a nossa agenda (assessor sem agenda é como
ministro sem assessor) e as nossas prioridades noticiosas; quando algum
jornalista nos contacta com um assunto que não está na nossa agenda
devemos dizer uma de duas coisas: «sobre isso não há nada a
dizer» ou «na próxima semana vamos fazer uma
conferência de imprensa, antes não falamos». Mas é
sempre possível negociar uma antecipação...".
(2)
"Os jornalistas são todos iguais, os sítios em que
trabalham é que não. Ainda assim, há jornalistas mais
iguais do que outros".
(3)
"Dar o número de telemóvel a um jornalista é uma
das coisas mais perigosas. Mas pode não haver alternativa. Nesse caso, o
assessor deve ter dois telemóveis: um para quase todos, outro para quase
nenhuns".
(4)
"Se não é um provérbio chinês, devia ser:
«se não queres que o teu ministro responda não deixes que
lhe façam perguntas». A partir daí depende apenas da tua
capacidade de os impedir...".
(5)
"Nunca é de mais relembrar: a sexta-feira continua a ser o
melhor dia para lançar as más notícias. Não se
esqueçam, as más notícias fizeram do Expresso aquilo que
ele é hoje. Porquê mudar o que está bem?"
(6)
"Não prometas aos jornalistas o que não podes cumprir. A
não ser que não possas deixar de prometer".
(7)
"O assessor
é o mordomo dos tempos modernos. Alguém tem de ficar com as
culpas... Além disso, um mordomo é um investimento muito
vantajoso"
(8)
"Cuidado com os elogios que se fazem a um jornalista. Os elogios devem
ser inversamente proporcionais à idade do jornalista"
(9)
"Há uma estatística imbatível que deve estar
sempre presente: metade dos jornalistas desiste no dia seguinte sem que lhe
tenha sido dada a resposta prometida, 25 por cento esquecem-se ao segundo dia e
há uns 10 por cento que abandonam o assunto nos dias imediatamente
seguintes. Os 15 por cento que continuam a ligar, uma semana depois, é
que são perigosos. Fazer-lhes a ficha...".
(10)
"Fazer a ficha a um jornalista que liga mais de duas vezes, mesmo que
para assuntos diferentes, é obrigatório. De onde é, para
onde vai, o que quer - se é que quer alguma
coisa. Fundamental é conhecê-lo informalmente. Depois as fichas
são trocadas nas reuniões alargadas das segundas-feiras.
Há um prémio mensal para o assessor que trouxer mais fichas novas
ou mais pormenores relevantes de jornalistas já fichados"
(11)
"Frase da semana: o jornalista é ficha"
(12)
"O melhor assessor é aquele que consegue fazer com que os
cidadãos não saibam aquilo de que necessitam mas só aquilo
que podem sabe"
(13)
Estão intimados todos os assessores de primeira, segunda e terceira
linha para o primeiro curso acelerado que vai decorrer num dos próximos fins de semana.
Assunto: «saber negar a verdade sem realmente mentir».
(14)
Antes de empurrar um jornalista tenha em
atenção esta regra: por um secretário de Estado não
se deve empurrar, apenas tocar; um ministro já é
compatível com dois ou três golpes nos braços; o lugar de
primeiro-ministro é proporcional a um ligeiro empurrão, sufciente para desequilibrar e distrair; finalmente, pelo
Presidente já se aceita que um jornalista seja afastado do caminho,
pelas costas…
(15)
Para os jornalistas que se mostram mais
persistentes, eis a sequência do argumentário
a usar: 1) “Isso não tem interesse nenhum”; 2)
“Já saiu há três dias na concorrência
(já não me lembro qual)”; 3) “Não há
nada de novo, o ministro já abordou essa questão e tão
cedo não volta a falar sobre a matéria”; 4) (já em
desespero) “Se avançar com alguma coisa é à sua
responsabilidade, depois não me venha…”
Lições
da Central - comunicado de última hora (outubro04)
"Tendo em atenção a enxurrada de notícias que
desvirtuaram o aparecimento da nossa Central, comunicamos que foi decidido
abrir concurso para contratação de uma empresa de
relações públicas*, em regime de
«outsourcing», que tratará da
imagem da Central. Os senhores assessores podem trazer sugestões de
empresas a convidar para o primeiro «briefing»".
* de conselho em comunicação, de
comunicação e imagem, de comunicação empresarial,
de marketing institucional...
Lições
da Central (16)
(a Central resiste...)
"Qualquer que seja o governo, em qualquer circunstância, é
preciso ter sempre, em agenda, dois ou três projectos polémicos,
que servem apenas para distrair as atenções da opinião
pública. Esses projectos não se destinam a ser concretizados e no
limite (se não forem vetados...) serão retirados ou congelados no
último minuto. Mas enquanto existem devem ser alimentados. O
espaço mediático é um bem limitado -
jornalista distraído com estes projectos não anda a preocupar-se
com o que não deve".