O relato de futebol

 

Identificação:

Com este texto a encerrar a alínea dedicada ao Directo pretende-se valorizar o relato desportivo (sendo o do futebol o mais frequente), uma vez que o consideramos como a função mais difícil de desempenhar na rádio.

O relato de futebol representa um clímax de tudo aquilo que se escreveu até agora, seja positiva seja negativamente (a que se acrescentam outras noções que ainda vamos desenvolver mais à frente): do texto (domínio das noções jornalísticas e linguagem apelativa) à voz (dicção, entoação), passando pelo combate ao “ruído” (por exemplo, a gestão das emoções), pelo exercício do improviso e pelo respeito pelo rigor. Tudo isto a uma velocidade excessiva (a bola é redonda...) e a acontecer em simultâneo.

A imprevisibilidade dos acontecimentos e a consequente impossibilidade de escrever (ou tomar tópicos, que não sejam os nomes dos jogadores e os cartões e as faltas), a duração brutal dos relatos (por vezes mais de duas horas, com um pequeno intervalo) e a emoção que os ouvintes colocam na escuta são apenas mais algumas dificuldades para quem faz relatos.

Principais erros

Mas esta soma de factores não justifica os principais erros que aparecem com frequência e que devem ser combatidos:

-         confusão permanente entre opinião e factos (os juízos valorativos, os adjectivos, devem ficar para o comentador, o relatador e o repórter devem descrever o que se passa e o que vêem);

-         uma linguagem estereotipada (que já faz parte do anedotário nacional e que não pode ser justificada pela facilidade de descodificação; há outras formas de dizer, imediatamente percebidas pelo ouvinte);

-         inutilidades que ocupam a antena (sendo a mais clássica: “a equipa que joga da nossa esquerda para a nossa direita”, como se isso tivesse alguma importância para o ouvinte – a diferença entre um estereotipo e uma inutilidade é que o primeiro pretende informar, a segunda não diz nada);

-         falta de rigor (que vai desde as quase-sempre-falhadas previsões de quem joga ao remate que afinal não passou a rasar a barra ou à lesão do jogador que não era grave – ver também “nota suplementar” neste texto);

Certo é que o relato é tão difícil de executar que é quase impossível sair perfeito. Mas também é isto que faz do relato uma arte, estádio impossível de alcançar pela esmagadora maioria das outras funções editoriais que temos de desempenhar na rádio (talvez a crónica ou uma reportagem muito bem elaborada).

Como provar que é uma arte?

Principais dificuldades

Há argumentos que mostram ao mesmo tempo a importância e a dificuldade do relato de futebol:

-         Vivendo a rádio em Portugal alguma ausência de notoriedade, os relatadores são dos poucos profissionais reconhecidos pelo público. Isto deve-se à paixão que os portugueses têm pelo futebol, mas também a algum reconhecimento dessa... arte!

-         É frequente ver gente nos estádios de futebol a ouvir rádio, incluindo aquele próprio jogo; e também acontece com muitas pessoas desligar o som da televisão (o relato televisivo em Portugal é muito frio e continua sem resolver a redundância com as imagens) – mais uma vez, a televisão não matou a rádio...

Arte, ou não, o relato de futebol é, acima de tudo, um exercício jornalístico. E como tal tem de respeitar a essência do conjunto de técnicas e prioridades do nosso trabalho. Um exemplo: até ao jogo começar o mais importante é a divulgação dos jogadores escolhidos (o “lead”). Os chamados “onzes” devem ser divulgados, se possível em “primeira mão”, mal sejam conhecidos, seguindo-se reacções e/ou comentários. Por isso é que o “relato TSF” começa sempre com antecedência (mas se a reportagem ainda não estiver no ar, há sempre um noticiário onde a informação pode ser dada).

 

Estilo TSF:

Há “um relato TSF”?

O estilo de relato futebolístico varia mais em função do relatador do que de normas fixas – ainda assim é possível distinguir vários sub-estilos dentro de duas correntes, uma mais fantasista e outra mais formalista.

Quanto às normas fixas: a presença de um comentador nos jogos que a TSF considera mais importantes; um ou dois repórteres junto ao relvado, como mais-valia informativa e com grande intervenção; início e conclusão das reportagens com alguma margem para permitir contextualizar e analisar as consequências (15 minutos a uma hora).

Finalmente as características endógenas que edificam um bom relatador: rapidez de reflexos, visão de jogo (que vá para além da bola, procurando o detalhe relevante), bom senso, amparo jornalístico e noções de notícia, submissão disciplinada ao rigor, atitude afirmativa na antena, boa dicção, uma linguagem diversificada (evitando erudições ou estereótipos) e um ritmo adequado (que não seja demasiado rápido ou lento e que consiga variar em função do desenvolvimento do próprio jogo).

 

Nota suplementar:

“Vai ser golo, vai ser golo... Ao lado!”

Aí está uma frase muito perigosa, que se ouve com demasiada frequência nos relatos da rádio.

Enquanto no jogo transmitido pela televisão, o telespectador está a ver o que se passa e pode ajuizar por si próprio (o relatador diz-lhe que vai ser golo, mas ele está a ver que a bola ainda está longe da área), na rádio tem de haver uma confiança cega naquilo que é dito pelo jornalista. Ora se este o engana diversas vezes, a partir de uma certa altura o ouvinte deixará de acreditar (além de se zangar com quem lhe cria falsas expectativas...).

É, portanto, uma questão de credibilidade, de rigor e de respeito pelo ouvinte.

Uma formulação destas só em casos extremos. Se durante o relato de um jogo que terminou com um ou dois golos se ouve esta frase umas cinco ou seis vezes alguma coisa está mal...

 

Outras perguntas?

Relatadores?

Optámos, aqui, pela palavra relatador, embora por vezes se ouça narrador e relator.

Estarão as três correctas, mas como se trata de um relato (e não tanto de uma narração – Brasil?) é lógica a palavra relatador. Relator? Confunde-se com os tribunais.

(ver Glossário).

 

E se não há comentador?

Por vezes não há comentador. Se se disse há pouco que o relatador ou o repórter se devem limitar aos factos, evitando análises valorativas, o que fazer?

Sendo uma excepção, defende-se o assumir da excepção.

Neste caso, sendo obviamente necessário um comentário ao jogo, relatador ou repórter devem fazê-lo. Curto, simples e sempre que possível respondendo a uma pergunta do editor que esteja em estúdio, de alguma forma para separar funções.

 

Dois relatadores?

Por vezes ouvem-se dois relatadores num mesmo jogo, um por cada equipa.

Duas razões podem justificar esta opção: a importância do acontecimento, para o qual a estação destaca as suas principais forças; “marketing” da estação, associando-se a essa excepcionalidade;

São razões, como se percebe, exógenas, que dizem pouco ao ouvinte.

Pelo contrário, dois relatadores não é uma boa opção em termos de compreensão da mensagem: a menos que as vozes sejam muito diferentes, pode haver “ruído” na passagem; a meio campo e nos contra-ataques é difícil definir quem relata (atropelam-se...); dois relatadores mais dois repórteres mais um comentador não serão vozes a mais?

Pior que tudo: o relatador mudar de equipa ao intervalo é desrespeitar completamente a escuta que o ouvinte vai fazendo!

 

E os relatos feitos em estúdio?

Há razões que podem obrigar a TSF a fazer o relato em directo do estúdio (sejam financeiras ou legais, como a não existência de direitos, ou logísticas, como um impedimento de última hora). Nesse caso deve ser dito no início do relato que o mesmo está ser feito do estúdio, com recurso a imagens de um determinado canal de televisão (especificar).

Durante o desenvolvimento do relato não é necessário voltar a fazer referência a essa circunstância, a não ser que se torne obrigatório (há um lance duvidoso, a TSF não está no local, espera pela repetição, não há repetição, deve esclarecer).

Mais uma vez com esta formulação tenta conciliar-se o respeito pelo ouvinte com uma preocupação de bom senso. Qual dos dois factores é mais importante? O respeito pelos ouvintes. Por isso é que não é admissível simular o ambiente do estádio com uma malha sonora gravada. Isso só artificializa a relação com o ouvinte, é uma (pequena) mentira. Além disso, se a malha é constante (sempre igual) não faz sentido, porque o som do estádio está dependente da evolução do jogo.

 

Há quem defenda que até um mau jogo pode dar um bom relato. É verdade?

Não é correcto artificializar a realidade. Se o jogo é mau (sem golos ou sem lances de perigo, lento, pouco emotivo em termos de decisão) o relato há de mostrar isso mesmo. Feito com profissionalismo, com os meios destacados, mas é natural que o resultado radiofónico final também seja menos interessante.