Índice

 

1.0  Uma notícia, um jornal, um político…………………………..2

1.1  Algumas hipóteses……………………………………..2

            1.2 O que fazem os jornais tablóides………………………3

                        1.2.1 Tabloidismo ou sensacionalismo…………….4

            1.3 O rumor e o tabloidismo……………………………….5

            1.4 O jornalismo e os rumores……………………………..6

            1.5 O “24 Horas”…………………………………………...6

2.0 Sobre o rumor (e a verdade)……………………………………7

            2.1 O rumor em Portugal (e na política)……………………8

                        2.1.1 Rumor ou boato……………………………….9

            2.2 Propagação pela Internet………………………………..9

3.0 O caso em concreto……………………………………………11

            3.1 Uma cronologia dos factos mais relevantes…………...11

            3.2 Implicações políticas…………………………………..13

4.0 Trabalho de campo…………………………………………….14

            4.1 Dados da recolha……………………………………….15

5.0 Conclusões……………………………………………………..16

      5.1 Conclusões relativas à cobertura do “24 Horas”……….16

      5.2 Outras conclusões………………………………………17

6.0 Bibliografia …………………………………………………….18

7.0 Anexos………………………………………………………….19

 

 

1.0  Uma notícia, um jornal, um político

Em 1847, Mark Twain comentou desta forma, no “New York Journal”, uma informação que acabara de saber: “a notícia da minha morte é claramente exagerada”.

É um caso clássico de desmentido de um rumor: uma informação não confirmada que circula em determinados meios por processos informais (o chamado “boca a boca” ou “boca a orelha”) e que o próprio tem a necessidade de contrariar, tal o impacto que gera.

Todos os dias em todos os locais circulam rumores. A maior parte das vezes são insignificantes, se medido o seu impacto colectivo, mas outras visam personalidades ou instituições com relevante expressão, por exemplo, nacional.

Os rumores acabam por chegar aos jornalistas, que – antes de o serem – são pessoas. Têm família e amigos, vão ao café. Mas também chegam aos jornalistas, neste caso ainda mais depressa, se essa for a intenção de quem criou e espalhou o rumor.

Este trabalho analisa um determinado rumor, que marcou a campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2005 em Portugal, envolvendo o candidato a primeiro-ministro do Partido Socialista (à frente em todas as sondagens) e uma suposta homossexualidade, não pública.

Mas analisa-o especificamente do ponto de vista do único jornal tablóide existente em Portugal: o jornal não resistiu a noticiá-lo, como pressupõe o ADN de um tablóide, mas com alguns cuidados – ou não pertencesse o diário ao principal grupo empresarial de Portugal.

Temos, assim, uma conjugação única em Portugal: um rumor envolvendo a sexualidade de um político, uma campanha eleitoral para eleger um primeiro-ministro e um jornal tablóide. Estes são os três pressupostos de base, mas deve juntar-se um quarto: a Internet é um veículo que casa especialmente bem com a lógica de rumor – está disseminada entre todos aqueles que podem influenciar a opinião pública, permite a transmissão de informação a grande velocidade e compatibiliza-se com o anonimato. 

 

 

1.1  Algumas hipóteses

Pegando ainda no exemplo de Mark Twain: os rumores são sempre notícias falsas? Não. Mas há alguns pontos a ter em conta:

- a apetência da comunicação social por notícias em primeira-mão (e dar em primeira-mão por vezes implica não a conseguir confirmar por inteiro, principalmente para não se perder tempo);

- o gosto do género humano pelo “voyeurismo” e pelos “segredos” dos famosos;

- a facilidade de circulação de informações não confirmadas, envolvendo esses famosos;

Estes três pressupostos estão presentes no exemplo de Mark Twain. E estarão presentes na generalidade dos rumores que vierem a ser noticiados.

Quase 150 anos depois, a comunicação social será mais criteriosa na confirmação das informações, mas os rumores continuam a existir. Hoje, reforçados pela existência de novos mecanismos de circulação da informação: desde o telefone à Internet, não ignorando os próprios meios de comunicação de massas (clássicos).

Mas a análise deste rumor não pode esquecer a componente política, envolvendo umas eleições muito importantes como as legislativas (o então primeiro-ministro recandidatou-se, mas, depois do seu governo ter sido exonerado pelo Presidente da República, as sondagens não lhe eram favoráveis). Só equacionando o contexto eleitoral se pode alargar o leque de hipóteses que este trabalho tentará confirmar ou desmentir:

- “O rumor é uma mentira montada em cima de um fragmento de verdade”, disse o sociólogo brasileiro Paulo Bahia[1]. Até que ponto a verdade é um elemento importante neste caso? Ou será que, como defende Henry-Pierre Jeudy, na comunicação social contemporânea “(…) já ninguém detém o poder de distinguir o verdadeiro do falso; a simulação, em matéria de comunicação, é absoluta, atribui-se a si própria a sua própria finalidade. (…) O jogo de espelhos dos simulacros é ele próprio infinito”[2].

- Assistiu-se, e pela primeira vez em Portugal, a uma campanha negativa, do PSD contra o PS; sabendo-se que o rumor aproveitava ao PSD em detrimento do PS, até que ponto aquele partido beneficiou contra este? E até que ponto é possível responsabilizar o PSD pelo rumor? “Boatos sobre líderes políticos houve muitos no passado – como haverá no futuro. Até esta campanha nunca tais boatos deixaram os subterrâneos do que não é utilizável por gente séria (…). Até esta campanha – porque nesta campanha o boato ganhou um protagonismo só possível no momento em que veio à tona sob a forma de insinuação. Num comício e na boca de um candidato. Pior: de um líder partidário. Pior ainda: de alguém que ainda é primeiro-ministro”, escreveu o director do principal jornal de referência em Portugal, o jornal Público[3].

-  Neste contexto, e sabendo-se que “os rumores hostis [são] peças do sistema de propaganda”[4], até que ponto pesou na campanha eleitoral e sobretudo na hora da votação?

- E qual foi verdadeiramente o papel do jornal em análise? Estando de parte a hipótese de o ter ignorado, poderia ter servido para o desmentir, amplificar ou, até, “gerar novos rumores”[5];

- Finalmente, que papel teve a Internet da difusão deste rumor em concreto? Acelerou ou desinteressou-se?

 

 

1.2 O que fazem os jornais tablóides

Não é este, obviamente, o âmbito para se teorizar sobre uma definição – aliás, nem sempre pacífica – entre os chamados jornais de referência e os tablóides.

No entanto, sendo um dos eixos essenciais deste trabalho a tabloidização do rumor, parece fazer sentido que se deixem algumas ideias sobre a caracterização de um jornal tablóide.

E, desde já, uma primeira nota: é pacífico – cada vez mais – que se a definição nasceu à luz de um determinado tamanho de jornal[6], hoje as dimensões da publicação não o caracterizam: há jornais de tamanho tablóide que são referências jornalísticas (“El País”, este com 30 anos de corte entre formato e conteúdo, “Liberation”, “Le Monde”, “Público” ou agora em Inglaterra as recentes experiências de redução de tamanho[7]) como há jornais de grandes dimensões, ou, como são chamados no meio, “broadsheets”, a praticar um jornalismo tablóide - é o que se passa com o periódico mais vendido na Europa, o alemão Bild-Zeitung[8].

No entanto o tamanho reduzido sobretudo das notícias, mais do que das páginas, está na génese da própria definição, como confirma o “Online Etymology Dictionary”: “jornalismo tablóide (1901) e os jornais que o praticam (1918), assim chamados por terem artigos pequenos e condensados e/ou por serem de tamanho pequeno”[9].

A esta característica poderemos juntar outras (numa lista não exaustiva):

- a prevalência dos chamados “casos humanos”, que muitas das vezes representam-se  si mesmos e não têm um valor agregador, apenas “voyeuristico”, em detrimento dos valores-notícia (“news-values”) clássicos – o “interesse do público” ou “o público quer” em vez do “interesse público”;

- relacionado com o “voyeurismo”, a invasão da privacidade, sobretudo de figuras mais ou menos mediáticas (outras vezes, essa invasão é consentida…);

- uma dimensão noticiosa próxima do entretenimento. Há mesmo quem lhe chame “infotainment”[10], como conceito que resume a perda dos valores tradicionais;

- mais emoção (com apelo a conceitos como o choque ou a heroicização, por exemplo) e menos informação (o que implica muitas vezes menos rigor na informação dada), ainda que isto não signifique abdicar da emoção que faz parte do próprio acontecimento;

- obtenção de informação por meios desleais, sem que isso seja feito a coberto de algum “interesse público”;

O tabloidismo é, portanto, uma maneira alternativa de fazer jornalismo, o que implica reconhecer uma atitude diferente de estar – a expressão nos meios académicos e mesmo jornalísticos é “junk food news”.

E com estas – e outras – características não é difícil catalogar nomeadamente um jornal, ou uma revista, um canal de televisão ou mesmo o noticiário de uma rádio. Ainda que, como resume a antiga provedora dos leitores do “Diário de Notícias”, Estrela Serrano, “os media, incluindo os referência, publicam um grande número de matérias que podem ser consideradas interessantes mas não importantes (…). Os media parecem estar a privilegiar, cada vez mais, o interessante em desfavor do importante”[11]. A mesma investigadora resume desta forma os temas preferenciais da comunicação social de referência, aquilo que Estrela Serrano designa por “hard news”, ou seja, “a cobertura de temas políticos, económicos, sociais, culturais, internacionais e científicos, numa perspectiva de cidadania e de interesse público, de modo a habilitar os cidadãos a tomar decisões por oposição a uma abordagem que privilegia o ‘jogo’, a guerrilha entre protagonistas, os ataques, os escândalos e o sensacionalismo”[12]

 

 

1.2.1 Tabloidismo ou sensacionalismo

Há quem inclua o sensacionalismo como uma característica do jornalismo tablóide ou como sinónimos (“Jornalismo tablóide é mesmo sinónimo de jornalismo popular e sensacionalista”[13]), mas na maior parte das vezes a verdade é que se confunde tabloidismo com sensacionalismo. Como se verá adiante com o próprio 24 Horas, esta coexistência nem sempre é correcta: são dois conceitos diferentes – ainda que por vezes não antagónicos – para descrever este tipo de jornalismo (o que se opõe aquilo que os anglo-saxónicos chamam de “quality papers” e cuja tradução literal para português não terá exactamente a mesma semântica, “jornais de qualidade”?).

Defendo uma separação clara dos dois conceitos, porque cada um deles significa, por si só, uma coisa diferente.
A lista anterior resume características da informação tablóide. Mas ouve-se muitas vezes dizer, para o mesmo contexto, que determinado jornal “é sensacionalista”[14].

Na linha de outros autores, admito o sensacionalismo quando há uma desadequação: i) entre o que é enunciado (nos títulos) e o texto do artigo; ii) entre o texto e a realidade dos factos. Portanto, é sobretudo uma questão da forma como se faz a abordagem de conteúdo, como este é tratado, e não de opções editoriais, de escolhas, como no tabloidismo.

Há contudo uma “zona cinzenta” de aproximação ou fusão dos dois conceitos: quando o destaque dado, a primeira página ou uma página interior, não corresponde ao real valor dos factos. O divórcio de uma actriz, por exemplo. É tabloidismo pela temática, e até pode ser tratado com rigor, mas há um empolamento da realidade, na lógica do sensacionalismo.

O jornalismo sensacionalista é aquele que exagera os factos, que inflaciona a realidade, que não é, por regra, rigoroso. Como descreve Meneses, o sensacionalismo implica uma forma de enganar o ouvinte (ou leitor): “entende-se por sensacionalismo a existência de desajustamentos entre os factos e a forma como são apresentados – ou seja, na rádio, quando o título ou o «lead» não coincidem com o conteúdo, menos forte do que o seu anúncio. É portanto um problema de (falta de) rigor e não, tanto, de ser chocante ou de mau gosto”[15] (a verdade será, para essa comunicação social, um objectivo, entre outros, mas não um fim).

Outra definição do jornalismo sensacionalista leva ainda mais longe a “incompatibilidade” entre o rigor dos factos e o que é publicado nessa comunicação social: “é do conhecimento público que têm a predisposição para criarem as suas próprias notícias se sentirem que os sujeitos não podem, ou não irão, processá-los”[16].

No caso em apreço, como se verá mais tarde, o “24 Horas”, devendo considerar-se um jornal tabloidista, não é sensacionalista – e, além da comparação das suas opções com a lista de critérios, pode perceber-se isso pelo reduzido número de desmentidos ou pela não existência – pública – de condenações judiciais (são famosas as indemnizações elevadas que os tablóides britânicos ou mesmo franceses ou alemães pagam periodicamente a quem os processa).

Isto significa que existem jornais que são apenas tablóides, evitando o sensacionalismo, da mesma forma que há aqueles que apostam principalmente no sensacionalismo, porventura não rejeitando as opções tabloidistas.

 

 

1.3 O rumor e o tabloidismo

Pelas referências anteriores não é difícil concluir que o rumor – pela sua génese – casa perfeitamente com o jornalismo sensacionalista – um “jornalismo” que arrisca sem ter a certeza, que avança sem confirmar todas as informações.

Contudo, em Portugal – e para o objecto deste estudo – não existe neste momento nenhum órgão de comunicação social que se possa considerar sensacionalista[17].

Contudo, se os tablóides privilegiam as notícias à volta de figuras públicas, se invadem, com ou sem consentimento, a privacidade dessas mesmas figuras e a sexualidade é – reconhecidamente – um dos temas que mais “voyeurismo” suscita, percebe-se que um jornal tablóide esteja interessado no desenvolvimento noticioso desse assunto.

 

 

1.4 O jornalismo e os rumores

Sendo uma realidade improvisada e não confirmada, como veremos adiante, o rumor é – só por si – incompatível com o jornalismo.

Os rumores “não se publicam”[18], diz o Livro de Estilo do Público. No jornalismo, expressões como “diz-se que”, “consta que”, “parece que” são sinónimos de rumores publicados, lembra o mesmo documento. Que, no entanto, alerta para a necessidade, em certos casos, de estar atento ao rumor. “(…) a natureza ou persistência  de certos rumores pode causar efeitos relevantes ou justificar uma investigação e daí resultar matéria publicável”[19]. O livro em causa cita alguns exemplos de rumores que influenciaram o comportamento das bolsas e, a partir daí, tornaram-se notícia. Em Meneses segue-se a mesma lógica, aliás usada genericamente para o tratamento de todos o tipo de informações ou documentos anónimos: “(…) pode ser o ponto de partida para uma investigação cuidada, ouvindo as partes”[20]. Outra hipótese é a comunicação social servir, “em certos casos, para os desmentir”[21]

Ou seja, o rumor em bruto é impublicável num órgão de comunicação social, seja ao abrigo das mais elementares regras ético-deontológicas seja – se mais não for – porque isso implicará um processo judicial e uma muito provável condenação judicial (sobretudo se visar alguém ou alguma instituição em concreto). O que não quer dizer que isso não aconteça: “Os media, cada vez mais, acreditam nos rumores e aceleram a sua propagação”[22].

Mas se o rumor “com tratamento editorial” pode ser publicado (como pista de investigação), há que perceber de que maneira isso vai acontecer. É que perante um rumor de elevado impacto público, qualquer órgão de comunicação social tem duas formas clássicas de o encarar: i) ignorá-lo a todo o custo; ii) investigá-lo, confrontar fontes e, havendo confirmação, publicá-lo.

Dir-se-á que se esgotam por aqui as opções. Mas não: o “24 Horas” não quis ficar à espera que ele se tornasse notícia e decidiu provocá-lo – como se verá adiante.

 

 

1.5 O “24 Horas”

O jornal “24 Horas” foi publicado pela primeira vez em 5 de Maio de 1998.

No seu estatuto editorial (anexo 1) encontra-se a definição essencial, perfeitamente possível de enquadrar com a lista de conceitos anterior: se “é um jornal (…) que tem no público leitor a sua razão de existir” é uma frase que pode ser usada em diversos contextos, há outras expressões bem claras: “(…) as pessoas não são números: o lado humano das histórias prevalece sobre a secura burocrática do seu registo”. Ou “A sua vocação é retratar as preocupações do cidadão e do consumidor”. Finalmente: “(…) sempre tendo em vista o esclarecimento dos leitores”.

Mas num documento divulgado junto de clientes e agências noticiosas, designado “Apresentação de Media” (anexo 2), os seus responsáveis vão mais longe quando caracterizam o jornal como sendo “(…) feito a pensar nos leitores; (…) atrevido, atraente, ágil e em elevada ascensão; grafismo apelativo com forte utilização da imagem e cor; fácil e rápido de ler”. Finalmente, na lista de “Áreas Focadas” aparece em primeiro lugar “Famosos”.

O jornal tem registado uma significativa subida nas vendas (é o terceiro mais vendido em Portugal) e no perfil do leitor (anexo 2) percebe-se que o seu público é sobretudo urbano (de Lisboa e da zona Sul de Portugal) e jovem, predominando – acima da percentagem do universo nacional – os trabalhadores não qualificados ou não especializados. Em termos de classes sócio-económicas é na designada “C2” que o jornal encontra o seu público privilegiado, embora o próprio afirme que 53% pertencem às classes ABC1 (ou seja, as classes mais altas).

Informação adicional, mas importante, porque explica o seu comportamento pouco agressivo e mais virado para a informação “light”: o jornal é, desde 2000, propriedade do maior grupo empresarial de Portugal, a Portugal Telecom, no qual o Estado possui ainda uma participação simbólica mas decisiva ao nível da nomeação da administração (a “golden share”).

 

 

2.0  Sobre o rumor (e a verdade)

Um exercício teórico sobre a construção do próprio rumor:

“O rumor sobre a homossexualidade de José Sócrates foi inventado pelo responsável brasileiro da campanha de Santana Lopes”.

O que é que faz com que esta frase deixe de ser um rumor e passe a ser uma calúnia, passível de procedimento judicial por difamação?

Claramente o seu anonimato.

Por outras palavras, dita (e sobretudo escrita) por mim – alguém perfeitamente identificável – seria uma calúnia, uma acusação que teria de provar. Passada no boca-a-boca (ou melhor dizendo, no boca-a-orelha) ou através da Internet, é um rumor.

Ou seja, já estão claras duas condições que podem garantir a existência do rumor: o anonimato e a necessidade de difusão. Falta, contudo, uma que os especialistas consideram muito importante: uma aparência de verdade. O rumor tem de, pelo menos aparentemente, fazer algum sentido.

Na simulação inicial diz-se que foi inventado por uma pessoa em concreto. Ora na verdade o director de campanha de Santana Lopes era brasileiro (e o rumor aparece primeiro no Brasil…). Por outro lado, aparentemente o rumor servia os interesses da candidatura do PSD e, como se verá posteriormente, o próprio Pedro Santana Lopes se colou a ele.

A questão da aparência de verdade no rumor é importante para que cada um, ao reproduzi-lo, se convença de que pode ser… verdade. É isso que leva T. Shibutani a falar em “notícias improvisadas”[23]. Para que, como defende Francisco Dias, a “interpretação colectiva” seja “consensual”[24] é preciso que pareça verdadeiro. Pelo menos “as crenças do seu grupo [são avaliadas] como verdadeiras, e as dos outros grupos como falsas”[25]. Ou seja, pelo menos entre o eleitorado do PSD o rumor teria sido bem recebido.

Como já se viu antes, o sociólogo brasileiro Paulo Bahia é ainda mais explícito: “o boato é uma mentira montada em cima de um fragmento de verdade. Enquanto as pessoas acreditam, os boatos não são boatos. É a verdade. Uma verdade provisória com efeitos bem reais”[26].

No caso do rumor envolvendo o candidato do PS, poderia perguntar-se que fundo de verdade condicionou o seu aparecimento.

Trata-se de uma matéria que não foi – por razões evidentes – desenvolvida, mas sendo o secretário-geral do PS divorciado e não se lhe conhecendo algum relacionamento posterior, público, pode pensar-se que começou por aí. Mais: penso ser interessante recuperar esta informação recolhida nos primeiros dias de circulação (mas sem qualquer validade académica ou jornalística), porque mostra a necessidade de relacionar factos que pareçam verdadeiros: o actor com quem o político em causa se estaria a relacionar terá sido visto a entrar no prédio deste. Aparentemente, diziam outros, porque um seu familiar ali reside. Mas estará aqui a génese do rumor que marcou a pré-campanha eleitoral de 2005.

 

 

2.1 O rumor em Portugal (e na política)

Se pela primeira vez em Portugal houve uma “campanha negra”, na qual o rumor se enquadrou (voluntária ou involuntariamente), e se nunca um rumor tinha sido associado tão directamente a um processo eleitoral, também é certo que não foi este em concreto que estreou Portugal nos rumores políticos. Há, até, um caso muito exemplar, uma vez que foi publicado pela revista francesa “Le Point” em Junho de 03 (envolvendo, alegadas homossexualidades).

Mas os rumores, basicamente, têm poupado os políticos – artistas ou jogadores de futebol têm sido os alvos mais preferenciais (um dos casos mais conhecidos acabou por ser desmentido em directo na televisão, mas com consequências muito negativas para a carreira do jogador e do cantor em questão[27]). Ou seja, nada que se compare com o que acontece, por exemplo, em França, onde há registo de três ministros que se suicidaram, directa ou indirectamente, na sequência de boatos (Roger Salengro, em 1936, Robert Boulin, em 1979, e Pierre Béregovoy, em 1993).

É, portanto, possível dizer que os portugueses foram apanhados desprevenidos quando se aperceberam que, à medida que decidiam o seu voto para as eleições, tiveram de se relacionar com o rumor envolvendo o líder do PS (até então os rumores eram inofensivos ou sem consequências para a vida colectiva – como os que falam em relacionamentos extra-conjugais).

Se o rumor teve uma origem bem definida (ou, pelo menos, se houve um aproveitamento direccionado), o seu objectivo só podia ser um: desgastar a imagem do líder do PS para beneficiar o outro candidato a primeiro-ministro.

Os resultados eleitorais mostram que não teve consequências.

Mas é justo reconhecer (e a análise de campo comprova-o) que teve bastante impacto e num curto espaço de tempo – a pouco mais de duas semanas da data das eleições legislativas. E, por via dessa “campanha negra” nunca foi tão verdadeira a afirmação, corrente em Portugal, de que vale tudo na política. Lurdes Martin Salgado conta que apesar dos esforços da Associação Americana de Consultores Políticos de criar um código de conduta em que se proíbem os associados de “abstenerse delanzar ataques falsos y engañosos contra el adversario político y que deben documentar com precisión cualquier crítica contra sus adversarios políticos (…). La realidad ha demostrado que el Código no há tenido un gran impacto en la prática”[28].

 

 

2.1.1 Rumor ou boato

Como sinónimo de rumor já apareceu neste texto, quando houve lugar a transcrever alguma citação, a palavra boato.

Popularmente são sinónimos e o Dicionário da Academia das Ciências comprova-o. Para boato é escolhida a seguinte definição: “Notícia ou versão geralmente maledicente, anónima e sem confirmação que se divulga acerca de alguém, de um facto ou de um acontecimento”[29]; para rumor, a definição é quase igual, embora mais curta: “Notícia não confirmada que se espalha rapidamente”[30]. Mas quer uma definição quer outra remetem-se mutuamente (as duas palavras têm origens diferentes, mas ambas descendem do latim).

Popularmente, ainda, boato é a formulação mais usada, sendo que rumor terá uma conotação um pouco mais erudita[31]. Mas quer na comunicação social quer em conversa informal, qualquer uma das duas palavras pode ser usada.

Há, a título de curiosidade, quem faça uma distinção. Fernando Cascais, no seu Dicionário de Jornalismo, considera boato uma variante de rumor, definindo-o como “um rumor deliberadamente falso ou que, ao circular, se tornou inverídico”[32]. Já relativamente a rumor, o mesmo autor fala “no mais antigo dos meios de comunicação, precedendo a escrita, como canal de comunicação nas sociedades. Veiculava notícias, fazia e desfazia reputações”[33].

Do ponto de vista da coerência interna deste trabalho, e como a contextualização das duas palavras só aparece neste ponto, continuará a usar-se preferencialmente a palavra rumor, não deixando de transcrever boato quando isso resultar de qualquer citação.

 

 

2.2 Propagação pela Internet

É a possibilidade de escrever anonimamente que dá à Internet a facilidade de se relacionar intensamente com o rumor. Mas não só: a instantaneidade de circulação da informação transforma um processo que implicava, antes, bastante tempo numa marcha acelerada.

Mas se a Internet é considerada hoje um meio de difusão com força suficiente para se igualar (ultrapassar?) os três clássicos, a sua maior força (a capacidade de democratização) pode também ser a sua maior vulnerabilidade.

A Internet, como meio de difusão de massas, não é um meio fechado a que só alguns têm acesso, seja por falta de licenças (rádio ou televisão) ou dinheiro (televisão e imprensa), mas sim um meio que pode chegar a toda a gente – pelo menos no mundo mais desenvolvido. Aberto à construção de quem saiba manipular a linguagem “html” e à visualização num telemóvel. Em dez anos, juntaram-se milhões de pessoas a saber construir a sua própria pagina ou, menos, a alterar a dos outros.

A actuação sob anonimato tem mais uma consequência directa: a Internet é uma actividade muito pouco controlada.

A democratização no acesso, o anonimato e a rapidez de transmissão resultam numa mistura explosiva, propícia à transmissão de informações falsas (ou, pelo menos, por confirmar). Alguns casos da história recente:

- Em Junho de 2004, diversos jornais norte-americanos (estimativas apontam para 850) viram as suas primeiras páginas “on line” alteradas, com mensagens ofensivas, da responsabilidade de um grupo de “hackers”; os servidores desses jornais e revistas foram desligados durante várias horas, até ser resolvido o problema;

- Em Setembro de 2001, um dos mais conhecidos “hackers”, Adrian Lamo[34], alterou uma notícia da agência “Reuters”, colocada numa página da “Yahoo News” (Lamo teve acesso à pagina de edição “web” da “Yahoo” e modificou uma notícia de Agosto). Mais tarde, o mesmo jornalista revelou ter feito o mesmo em diversas páginas de notícias, para demonstrar a fragilidade do sistema;

- Em 2003, a “Microsoft” e a “Vivendi Universal” tiveram de desmentir uma notícia falsa colocada por estudantes de uma universidade dos Estados Unidos (com recurso a um programa de edição), em que se dava conta de uma aquisição da primeira relativamente à divisão de jogos da segunda. A notícia enganou diversos órgãos de comunicação, sobretudo norte-americanos, que a publicaram e obrigou a diversos desmentidos[35].

- Existem, até, “sites” de notícias falsas e outros que “têm como única função «atacar» corporações. «Microsoft», «United Airlines», «Coca-cola» são alguns dos alvos preferidos. Existem cerca de 7800 sítios na «Web», apontados a entidades específicas e destinados a recolher queixas de consumidores de todo o lado do planeta”[36] ;

- Em Portugal, nos primeiros anos desta década, circulou abundantemente um pequeno vídeo pornográfico em que a actriz era extremamente parecida com uma conhecida modelo e actriz portuguesa. Esta teve de desmentir as parecenças na comunicação social, esclarecendo que se tratava de uma sósia húngara. O rumor terminou aí;

Os exemplos anteriores baseiam-se na construção de notícias falsas em programas de edição de texto (e imagem), que são colocadas nos servidores de jornais. Mas porque isso implica dominar a técnica de programação (e aceder a códigos que, muitas vezes, são secretos), não é uma situação muito fácil. A forma mais banal, nos últimos anos, para fazer circular notícias falsas, é através do correio electrónico.

A experiência de qualquer utilizador comum de Internet atesta a circulação periódica de mensagens falsas, das mais banais (o pseudo-banco da Nigéria que oferece uma fortuna a troco de uma pequena contribuição) às mais elaboradas. Em Janeiro de 2003, o diário espanhol “La Vanguardia” foi obrigado a desmentir uma alegada notícia, com o título “Muere un motociclista por congelación en plena A-7”[37]. A “notícia” dizia que o tal motociclista teria andado 70 quilómetros, já morto, incluindo a portagem (que não pagou…). Os responsáveis do jornal catalão explicaram que alguém transformou essa brincadeira numa notícia (com acesso ao código-fonte da página) e que alguém no jornal pensou que fosse uma notícia da redacção pronta a paginar. A BBC também tem um caso, já clássico, envolvendo a explosão em Bhopal (Índia)[38].

Um responsável pela principal associação de defesa dos consumidores em Portugal, DECO, confirmou que a sua associação é muitas vezes contactada por consumidores com pedidos de esclarecimento em relação à veracidade do conteúdo de mensagens de “e-mail”. E que «a maioria destas mensagens “não é séria”, mas mesmo assim “conseguem criar uma dúvida no espírito dos consumidores”[39].

E se há, por vezes, motivações mais ou menos nobres neste tipo de acções (por exemplo, pôr as pessoas a pensar em determinado tipo de assuntos, como a destruição da floresta amazónica ou mesmo denunciar a fragilidade de certos sistemas informáticos), na maior parte dos casos há outro tipo de motivações claramente negativas: querer prejudicar um determinado tipo de produto ou marca (interesses comerciais que também se percebem quando as mensagens visam a recolha de endereços, para envio posterior de mensagens publicitárias).

Há, neste domínio comercial (“e-commerce”), um caso extremo: a Coca-Cola, vítima frequente destes boatos, tem disponível na sua página muitos dos que, até hoje, circularam sobre a marca[40].

A caracterização, aqui feita, da Internet e a enunciação destes exemplos permite concluir que se, por um lado, o rumor antecedeu a própria escrita no processo de comunicação humana, por outro, nunca como agora houve tantos. E porventura mais graves, porque disseminam-se a sério. A Internet banalizou o rumor.

 

 

3.0 O caso em concreto

A análise do caso em concreto está assente na cronologia, o mais exaustiva possível, que foi preparada. Ela permite perceber como é que o “fenómeno” evoluiu, quando se concentrou e como perdeu força.

Mas, paralela à cronologia, fez-se também uma análise do comportamento de cada um dos dois protagonistas, numa tentativa de perceber o que é que aconteceu. Afinal, por essa altura escrevia-se que “Portugal anda cheio de rumores. Zunzuns nas ruas, nos corredores do poder, às portas dos tribunais, nas empresas. Os boatos mais quentes são os que especulam sobre os amores das figuras públicas. Com a campanha eleitoral à porta, as personalidades de Santana Lopes e José Sócrates inspiram as mais férteis imaginações”[41]. Ou seja, o rumor existiu. 

 

 

3.1 Uma cronologia dos factos mais relevantes

A cronologia deste caso resultou de múltiplas consultas, na comunicação social e na Internet. Essas consultas começaram a partir do momento em que o Presidente da República demitiu o governo e convocou eleições antecipadas e terminaram no dia das eleições. O facto de a cronologia abarcar um período muito mais restrito (essencialmente um mês) significa que se conseguiu delimitar o âmbito do trabalho, tarefa essencial para a análise dos resultados do trabalho de campo.

Quando as fontes não são directamente referenciadas na elaboração da cronologia, isso resulta do facto das declarações terem sido prestadas à generalidade da comunicação social.

 

03/10/04:

José Sócrates (JS) é eleito secretário-geral do Partido Socialista;

 

01/12/04:

O Presidente da República dissolve a Assembleia da República e convoca eleições antecipadas. O primeiro-ministro Pedro Santana Lopes (PSL) demite-se mas recandidata-se ao lugar como líder do Partido Social Democrata;

 

As eleições são marcadas para o dia 20 de Fevereiro de 05;

 

05/01/05:

No sítio brasileiro da Internet http://www.gibaum.com.br/05012005.htm, da responsabilidade de Giba Um, é revelado que o líder do  ”mantém uma amizade íntima prá lá de estável e coloridíssima com o jovem e belo ator (...)”. O texto começa a circular pela internet, chega a Portugal e é reproduzido em vários blogues[42];

 

20/01/05:

Na capa da revista “Visão”: “O boato é uma arma”; no interior, escreve-se que “entre as hostes de José Sócrates, não se comentam os boatos que têm o candidato como alvo” (e que tem origem no Brasil); e o responsável pela campanha socialista diz que “o boato é a arma dos fracos, de quem sabe que vai perder”

 

Na capa do jornal “O Crime” é reproduzido o texto de Giba Um;

 

22/01/05:

Dois cronistas do “24 Horas” referem-se ao rumor, um (Rui Unas) indirectamente e outro (Carlos Castro) referindo a origem no Brasil;

 

24/01/05:

JS dá uma entrevista na “SIC” mas nada é abordado;

 

28/01/05:

Na primeira página do “Tal & Qual”: “Boatos à solta”;

 

29/01/05:

PSL num comício em Braga (perante mil mulheres): “O outro candidato tem outros colos. Estes sabem bem”. E desafiou o PS a revelar a posição sobre os casamentos homossexuais; JS responde no mesmo dia, dizendo que “No programa do PS está tudo claríssimo: nós não propomos o casamento entre homossexuais, nós não propomos a adopção de crianças por casais homossexuais”;

 

30/01/05:

O director do “24 Horas” dedica o editorial à questão do casamento dos homossexuais;

 

Um dos mais conhecidos militantes do PSD (ex-dirigente) escreve no seu blogue: “O que se passou nos últimos dois dias na campanha eleitoral do PSD por responsabilidade directa de Santana Lopes, as afirmações baixas nos comícios, (…) um mundo de insinuações morais transformado em campanha eleitoral, levantam a suspeição sobre se não haverá uma campanha organizada de boatos que sirva de pano de fundo a esta guinada de campanha negativa tão pouco habitual em Portugal”[43];

 

01/02/05:

O director de campanha do PS, Jorge Coelho: “De uma vez por todas terminem os boatos. Haja bom senso”;

 

PSL desmente ter feito qualquer insinuação: “nunca nos meus 20 e tal anos de vida política ataquei alguém com fins pessoais”;

 

O anterior líder do PS, António Guterres: “É um péssimo serviço à democracia fazer uma campanha pelo boato e pelo rumor”;

 

JS, em entrevista à “RTP”: “tenho sido alvo de boatos completamente falsos” e refere “insinuações indignas, impróprias de um líder político”;

 

02/02/05:

“24 Horas” na capa: “Boatos sobre Sócrates e Santana sujam campanha eleitoral”;

 

O comentador da “TVI” Miguel Sousa Tavares revela o boato durante o principal noticiário. Ao “24 Horas” do dia seguinte explica: “Depois de ter constatado que de facto se espalhou pelo país todo, tinha de quebrar a hipocrisia e dizer qual era o boato”;

 

03/02/05:

Na revista “Visão”: “Campanha suja”. No interior escreve-se: “cartazes vandalizados (…), boatos a circular pela Internet. Assim vai a pré-época eleitoral”; No mesmo texto, “Santana terá admitido a alguns companheiros que os «mimos» [de] que Sócrates gosta são de banqueiros, empresários e do Presidente da República”;

 

Na “SIC”, frente a frente entre PSL e JS. Este fala em “boatos mentirosos” e em“cobardia”; aquele diz que “se a pessoa não se quiser expor não é relevante”

 

05/02/05:

No último dia de pré-campanha eleitoral, o principal jornal diário de Portugal, “Público” trata pela primeira vez o assunto, de uma forma noticiosa, com três textos: “Família tradicional está fora da campanha eleitoral”; “Santana diminuiu a exposição pública desde que é primeiro-ministro” e “PS debate como enfrentar insinuações de Santana”; Nenhum deles refere o teor do boato directamente, mas fala-se duas vezes em homossexualidade;

 

Primeira página: “Pai de Sócrates indignado com os boatos”;

 

06/02/05:

Começa a campanha eleitoral;

 

15/02/05:

Debate com os cinco líderes na “RTP”; o assunto não é abordado;

 

20/02/05:

O PS ganha as eleições com maioria absoluta;

 

 

3.2 Implicações políticas

A cronologia permite uma leitura clara: o rumor durou até ao último dia da pré-campanha eleitoral, tendo desaparecido completamente a partir do dia 6 de Fevereiro (o que permite uma conclusão curiosa: durou um mês certo, de 5 de Janeiro a 5 de Fevereiro).

A razão parece óbvia: independentemente do aproveitamento político que o PSD fez do dito rumor, a verdade é que este só ganhou validade política após a intervenção de PSL no dia 29 de Janeiro: o “colo” e o “casamento dos homossexuais” – por outras palavras, credibilizou-o junto da opinião pública, ao “elevar o estatuto da fonte” e tornando mais “credível aquilo em que se crê”, diz Francisco Dias[44].

Nesta altura, é impossível dizer que rumo teria tido, se o líder do PSD não o tivesse suscitado – na opinião do director do jornal “Público” não há qualquer dúvida, “[ao contrário do que PSL alegara no dia anterior] não houve qualquer mal-entendido ou qualquer «frase fora do contexto»: o que se passou no comício das «mil mulheres» do passado sábado foi do mais puro e genuíno Santana Lopes”[45].

Mas que o candidato do PS acabou por beneficiar, disso não parece haver dúvida. É, aliás, o responsável pelo marketing da campanha socialista, Luís Paixão Martins, quem o reconheceu: “Quando um dos concorrentes institucionalizou na campanha a questão que estava no boato proporcionou-nos mais uma oportunidade para sublinharmos a questão da credibilidade”[46]. Mas não deu apenas essa hipótese. De acordo com o mesmo Luís Paixão Martins, o PS encarou a questão do boato como uma oportunidade: “José Sócrates demonstrou, em toda a campanha, uma invulgar capacidade para seguir o rumo que traçou previamente. Resistiu aos boatos e, mesmo, às tentativas de trazer o boato para o combate político”[47].

Ou seja, a estratégia de campanha negativa, idealizada pela candidatura social democrata (pela primeira vez em Portugal, com um âmbito nacional), não resultou. Entre outras razões, talvez por não assentar num facto comprovadamente verdadeiro. Como lembra o especialista norte-americano Bob Squier, “Me encanta hacer publicidad negativa. Es una de esas oportunidades de la campaña en las que coges la verdad y la usas como un cuchillo para abrir el canal al adversário”[48].

Sem um facto comprovadamente verdadeiro que suporte essa campanha negativa, restam os ataques implícitos, “aquellos mensajes que tienen en cuenta las debilidades del adversario, pero no lo mencionan directamente” diz Lourdes Martin Salgado, para quem “uno puede permitirse no mencionar el objectivo del ataque cuando ya existe un amplio conocimiento por parte de la opinion publica de sus debilidades o defectos”[49]. O que não era, manifestamente, o caso.

A questão da possibilidade de comprovação da verdade é aqui relevante uma vez que há quem defenda que “todos os boatos têm sempre um fundamento de verdade, por isso devem ser combatidos através de um esclarecimento público”[50].

Finalmente, e ainda de acordo com a mesma autora, “los ataques ganan en eficacia cuando no son contestados”[51]. E foi isso que Sócrates fez, limitando-se a desmentir por duas vezes. Sem mais pormenores. Ou seja, não ignorou quer o assunto quer o adversário, até porque os jornalistas lhe fizeram a(s) pergunta(s), mas não respondeu verdadeiramente – por exemplo, sendo um rumor sobre a sua alegada homossexualidade poderia ter aparecido com uma mulher nos comícios. Não o fez (seria uma forma de não responder por palavras mas por actos).

Em resumo, por culpa própria ou vítima da estratégia socialista, a verdade é que entre muitos comentadores, mesmo próximos do PSD, prevaleceu ideia de que PSL “ajudou”, com a manipulação do boato, JS. “Pedro Santana Lopes talvez venha a aprender que cometeu um deslize imperdoável por ter sugerido uma suposta homossexualidade de José Sócrates (…) E eis como Santana Lopes entregou mais uma parte da vitória ao PS”, escreveu Francisco José Viegas[52].

 

 

4.0 Trabalho de campo

A elaboração, para o ponto anterior, de uma cronologia dos factos mais relevantes permitiu delimitar o campo de trabalho – o mesmo é dizer, qualquer que fosse a pesquisa a realizar, ela teria de ter um âmbito predefinido.

Sendo o objecto deste estudo o comportamento editorial do único jornal tablóide português relativamente ao rumor que envolvia o candidato do Partido Socialista, serão analisadas as edições de 5 de Janeiro a 5 de Fevereiro (uma vez que as anteriores e as posteriores foram eliminadas por evidente falta de conteúdo – ou não “existia” ainda ou deixou de existir). O universo total é de 32 edições. No entanto, a malha poderia ser mais apertada, se se quisesse concentrar o período em causa a partir do dia 20/01 – o dia em que um jornal pôs na primeira página, e portanto à vista de todos, o rumor que antes circulava apenas pela Internet (assim seriam apenas 17 edições);

A análise, sobretudo quantitativa mas também qualitativa, não é muito exaustiva – porque o âmbito do trabalho também não o permite. Mas, ainda assim, analisaram-se os seguintes items:

a) primeiras páginas com referência ao rumor;

b) total de edições em que o rumor é referido (directa ou indirecta);

c) distinção entre referências em notícias (ou entrevistas, ou reportagens) e opinião;

d) referências directas e referências indirectas (ou seja, aquelas que abordam a temática, sem ligarem o caso ao candidato do PS);

 

 

4.1 Dados da recolha

De acordo com os parâmetros enunciados anteriormente, o trabalho de campo produziu os seguintes resultados (tendo sempre presente um universo global de 32 edições, descritas nos quadros como “restantes”:

 

a)      Primeiras páginas com referência ao rumor: 3 (02/02, 03/02, 05/02);

 

b)      Total de edições em que há referência (directa ou indirecta): 8 (22/01, 30/01, 31/01, 01/02, 02/02, 03/02, 04/02, 05/02):

 

c)      Distinção entre notícias e opinião (por edição): 3 edições com notícias (02/02, 03/02, 05/02); 8 com opinião (22/01, 30/01, 31/01, 01/02, 02/02, 03/02, 04/02, 05/02):

 

 

d)      Diferença entre referências directas e indirectas: 12 directas (02/02, 03/02, 04/02, 05/02)[53], 5 indirectas (22/01, 30/01, 31/01, 01/02, 02/02);

 

 

 

5.0 Conclusões

Divido as conclusões em dois tipos: as que resultam da análise do trabalho de campo e outras de carácter mais global, sobre o próprio caso.

 

 

5.1 Conclusões relativas à cobertura do “24 Horas”

- O rumor chegou cedo ao “24 Horas” (se se considerar que o rumor chegou à opinião pública no dia 20/01, o jornal demorou apenas dois dias);

- Chegou cedo mas veio para ficar (se a amostra tivesse sido reduzida às 17 edições, entre 20/01 e 05/02, teríamos uma percentagem de referências de quase 50%);

- As referências directas só começam a partir do dia 02/02. Os acontecimentos da véspera tornaram-no num dos dias mais escaldantes da política portuguesa. Antes há apenas referências indirectas (mais fáceis);

- As referências indirectas desaparecerem a partir de 02/02;

- A opinião está presente em todas as edições em que há referência ao rumor;

- A opinião (alguma dela sob pseudónimo) foi mais frequente, o que demonstra por um lado a dificuldade de noticiar o que

- O “24 Horas” tentou ainda manter o assunto na agenda mediática, como se prova pela primeira página do dia 05/02, mas acabou por desistir a partir daí;

- De 30/01 a 05/02 são oito dias seguidos. Foi o período de explosão e queda do rumor;

- Uma nota para relatar a forma como o jornal noticiou pela primeira o rumor: não querendo tomar a iniciativa, perguntou a alguns políticos se o conheciam e o que é que pensavam dele; alguns aceitaram comentar algo que passou, assim, a ser notícia;

- A cobertura sistemática do “24 Horas” terá dado os seus resultados. Os números relativos às vendas do primeiro trimestre de 2005 revelam que “foi (…) o único jornal que conseguiu subir as vendas em banca, perante um cenário de baixas generalizadas”[54]. Fernando Cascais é claro: “(…) o tratamento sensacionalista[55] da informação é normalmente corolário de uma estratégia editorial (e de selecção informativa) comercialmente orientada (…)”[56].

 

 

5.2 Outras conclusões

- Excluindo de qualquer análise “O Crime”, o “24 Horas” não foi o primeiro órgão de comunicação social a referir-se ao rumor. A edição do dia 20 de Janeiro da revista (de referência) “Visão” deve ser considera como precursora;

- O rumor teve bastante impacto e foi, mesmo, o tema dominante da pré-campanha (deixando para as duas semanas de campanha os temas verdadeiramente importantes);

- JS ganhou as eleições com maioria absoluta e pela primeira vez na história da democracia em Portugal um primeiro-ministro em funções não foi reconduzido eleitoralmente. Não cabe neste âmbito a interpretação, mas é sempre possível encontrar nesta frase do psicólogo Frank McAndrews uma explicação: “As fofocas ajudam as pessoas a manterem-se na linha e a serem mais honestas. É como se os boatos pudessem, de certa forma, lhes regular o comportamento para que se portem como bons cidadãos. Ninguém quer ficar malfadado”[57];

- O caso em concreto confirma que se tratou de um caso efémero, “com um período de vida reduzido (…). Considera-se geralmente que o silêncio que sucede ao desmentido significa o fim do rumor”[58]. Mas isso “não significa que o assunto seja esquecido, nem que a tensão subjacente haja desaparecido”[59]. Popularmente também se diz que um rumor nunca morre, “ficando sempre qualquer coisa «no ar»[60].

 



[1] CORREIA, Alexandra e ALMEIDA, Pedro Dias de, “O boato é uma arma”, Visão, 20/01/05, 86.

[2] JEUDY, Henry-Pierre, “Comunicação em abismo», Revista de Comunicação e Linguagens, nºs 17-18, Lisboa, Cosmos, 26, apud MESQUITA, Mário (1997), O Jornal em Análise, Coimbra, Minerva, 44.

[3] FERNANDES, José Manuel, “O mundo visto do meu umbigo”, Público, 02/02/05, 4.

[4] DIAS, Francisco (1999), Rumor, a realidade improvisada, V.N. Gaia, Estratégias Criativas, 74.

[5] DIAS, idem, 66.

[6] 597 por 375 milímetros por página

[7] “The Independent”, “The Times” e “The Scotsman” reduziram em 2005 as suas edições à semana, designando-as por “compact editions”, para evitar a conotação negativa com os tablóides.

[8] E até há, como acontece com o inglês “Daily Mail”, os que praticam um jornalismo tablóide mas que se reivindicam como sendo “jornais de referência”

[10] HARTLEY, John (2004), Comunicação, Estudos Culturais e Media, Lisboa, Quimera Editores, 145.

[11] SERRANO, Estrela, “O interessante e o importante”, Diário de Notícias, 29/12/03, 13.

[12] GOUVEIA, José Eduardo Fialho, “O que eles têm que os outros não têm?”, O Independente, 05/12/03, 40-41.

[13] CASCAIS, Fernando (2001), Dicionário de Jornalismo, Lisboa, Verbo, 184.

[14] Por exemplo http://en.wikipedia.org/wiki/Tabloid (consultado a 12/06/2005)

[15] MENESES, João Paulo (2003), Tudo o que se passa na TSF, Porto, Jornal de Notícias, 124.

[16] http://en.wikipedia.org/wiki/Tabloid (consultado a 12/06/2005)

[17] Existe um na verdade, e até será citado mais adiante, “O Crime”, mas é suficientemente desprestigiado para o podermos ignorar

[18] Livro de Estilo do Público (2005), Lisboa, Público, 98.

[19] Idem.

[20] MENESES, ibidem, 252.

[21] BALLE, Francis (dir) (1998) Dictionnaire de Medias, Paris, Larousse, 222.

[22] Idem.

[23] SHIBUTANI, T. (1996), Improvised news: A sociological study of rumor, Indianapolis, Bobbs Merrill apud Dias, idem.

[24] DIAS, ibidem, 14.

[25] Idem.

[26] CORREIA, Alexandra e ALMEIDA, Pedro Dias de, ibidem, 88.

[27] Conhecido como o caso Calado-Melão, foi o destaque do programa “Herman Sic” em Outubro de 2000

[28] SALGADO, Lurdes Martin (2002), Marketing político, Barcelona, Paidós, 41.

[29] Dicionário da Academia das Ciências (2001), Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, v. 1, 543.

[30] Ibidem, v. 2, 3291.

[31] Não é certamente por acaso que os dois únicos livros publicados em Portugal seguem estratégias diferentes: “Rumor, a realidade improvisada” é o resultado de uma tese de mestrado de Francisco Dias; Já “Boatos, o meio de comunicação mais velho do mundo” é uma tradução da obra francesa de Jean-Noel Kapferer. O editor português não hesitou em escolher boatos em vez de rumor.

[32] CASCAIS, Fernando, ibidem, 172.

[33] Idem.

[36] LAPA, André, “Boatos Electrónicos”, Visão, 27/05/04.

[38] “BBC reputation hit by Bhopal interview hoax” in http://www.guardian.co.uk/uk_news/story/0,3604,1366397,00.html

[39] MARQUES, Sara, “Boatos na Internet podem prejudicar empresas”, Portugal Diário, 25/06/04.

[41] CORREIA, Alexandra e ALMEIDA, Pedro Dias de, ibidem, 86;

[44] DIAS, Francisco, ibidem, 36.

[45] FERNANDES, José Manuel, “O mundo visto do meu umbigo”, Público, 02/02/05, 4.

[46] “Segredos da campanha eleitoral”, www.tsf.pt/online/imprimir/interior.asp?id_artigo=TSF159112&seccao=portugal (cons. a 03/06/05)

[47] “Os trunfos de Sócrates – Como me tornei primeiro-ministro”, Correio da Manhã, 27/02/05

[48] SQUIER, Bob apud SALGADO, ibidem, 233.

[49] SALGADO, ibidem, 240.

[50] MOUTINHO, Ana Viale (2001), Dicionário de Relações Públicas, Porto, Campo das Letras, 38.

[51] SALGADO, ibidem, 242.

[52] VIEGAS, Francisco José, “A vida privada”, Jornal de Notícias, 03/02/05, 12.

[53] Nas 12 referências incluem-se as 6 da edição de 02/02/05, 4 do dia 03/02 e 2 relativas a 05/02

[54] “Vencemos a crise”, 24 Horas, 30/06/05, última página.

[55] O autor em causa não faz a distinção entre sensacionalismo e tabloidismo.

[56] CASCAIS, ibidem, 175.

[57] “Por que gostamos tanto de fofocas?”, Focus, 23/02/05.

[58] DIAS, ibidem, 83.

[59] KAPFERER, Jean-Noel apud DIAS, Francisco, idem.

[60] MOUTINHO, idem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6.0 Bibliografia

 

BALLE, Francis (dir) (1998) Dictionnaire de Medias, Paris, Larousse

 

CASCAIS, Fernando (2001), Dicionário de Jornalismo, Lisboa, Verbo

 

DIAS, Francisco (1999), Rumor, a realidade improvisada, V.N. Gaia, Estratégias Criativas

 

HARTLEY, John (2004), Comunicação, Estudos Culturais e Media, Lisboa, Quimera Editores

 

MENESES, João Paulo (2003), Tudo o que se passa na TSF, Porto, Jornal de Notícias

 

MESQUITA, Mário (1997), O Jornal em Análise, Coimbra, Minerva

 

MOUTINHO, Ana Viale (2001), Dicionário de Relações Públicas, Porto, Campo das Letras

 

SALGADO, Lurdes Martin (2002), Marketing político, Barcelona, Paidós

 

Livro de Estilo do Público (2005), Lisboa, Público